Amigos, muitos leitores do blog me honraram perguntando sobre o escritor Mario Vargas Llosa, recém-laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, e sobre o livro de entrevistas, esgotado, que fiz com ele, Conversas com Vargas Llosa.

Assim sendo, vou transcrever aqui um trecho muito divertido da longa conversa, em que Vargas Llosa falou das críticas e dos insultos que recebia (e que certamente ainda recebe).

A coisa aconteceu durante uma festa de aniversário do poeta chileno Pablo Neruda. Neruda era um comunista militante e convicto que, porém, não abria mão da boa vida.

Dessa forma, a festa transcorreu a bordo de um iate ancorado no Rio Tâmisa, em Londres, regada a um ponche, fortíssimo, à base de champanhe francês Dom Pérignon, que, segundo Vargas Llosa, àquela altura do campeonato tornara todo mundo bêbado.

Vamos lá:

“Eu recebera naqueles dias um artigo – nem me lembro mais sobre qual assunto – que me entristeceu e enfureceu terrivelmente, porque me insultava e mentia a meu respeito. Mostrei-o a Neruda. Então nessa festa, e de porre, ele profetizou:

— Você está começando a ser famoso. Quero que saiba o que lhe espera: quanto mais famoso você for, mais ataques como esse vai receber. Por cada elogio, virão dois ou três insultos desses. Eu tenho um baú no qual estão todos os insultos, infâmias e vilezas que se podem atribuir a um homem. Não existe uma que não me tenha sido atribuída: ladrão, maricón, traidor, canalha, cornudo… – tudo! Se você se tornar famoso, terá que passar por uma experiência parecida.”

Aí eu pergunto a Vargas Llosa:

— E foi assim que aconteceu mesmo?

E ele:

– Foi uma grande verdade: realmente o prognóstico de Neruda se cumpriu de forma absoluta, com todo o rigor. Eu não tenho apenas um baú, mas várias maletas de artigos onde existe toda classe de insultos, onde estão absolutamente todos os insultos que se podem atribuir a uma pessoa [risadas].

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11 Comentários

ana em 10 de outubro de 2010

Ah Elianemoura, que o digam os grandes "BENEFICIADOS" com as privatizações. Uiiii parece que todo mundo adora boa vida ( independente de ser ou não comunista, papagaio, marreco, tucano etc ), ainda mais com o dinheiro alheio não é?

Refer em 09 de outubro de 2010

A melhor coisa que aconteceu a Vargas Llosa, depois do Nobel, foi não ter ganhado a eleição para a presidência do Peru.

Siará Grande em 09 de outubro de 2010

Caro Ricardo, não entendi porque o grande Vargas Llosa se espanta quando um comunista gosta da boa vida. Os comunistas daqui da Capitania do Siará Gande, por exemplo, só vestem roupa de grife. Usar roupa comum é coisa pra quem vive do trabalho, não para os defensores do proletariado. O Vargas Llosa não se espantou com nada. O comentário foi meu, caro Siará... Abração

ereader em 09 de outubro de 2010

Caro Setti, Faça, logo, uma edição eletrônica de seu livro. De forma independente, é claro. Estabeleça um preço razoável - R$10, por exemplo - e não a exorbitância que os idiotas dos e-livreiros brasileiros estão praticando em seus miseráveis lançamentos. A mediocridade é marca inextirpável nacional. Vai vender bem. Embora sendo Brasil, há um excelente estoque de inteligência operando. Na escala, você terá sua merecida contrapartida; e o leitor, o prazer estético de sorver um bom e memorável texto. Obrigado pela idéia, caro amigo. Minha dúvida prende-se mais ao conteúdo do livro: embora excelente -- graças ao Vargas Llosa, não a mim --, o livro é de 24 anos atrás. De lá para cá, aconteceram muitíssimas coisas interessantes com o escritor, inclusive sua candidatura à Presidência do Peru, ele escreveu mais de uma dezena de novos livros, rodou o mundo, acaba de ganhar o Nobel... Eu precisaria reentrevistá-lo longamente e retomar o livro do ponto em que parei. Mas vou pensar. Quem sabe, por um preço até menor do que o que você sugeriu, valha a pena. Um abraço e obrigado. Ricardo Setti

evandro condé em 09 de outubro de 2010

Salvo engano - tudo bem que Neruda já havia falecido- teu companheiro de Veja já fez comentários nada airosos sobre o Neruda. Cada um tem direito a suas opiniões, não é mesmo, Evandro? Pessoalmente, gosto do Neruda como poeta. E, politicamente, embora eu divergisse dele, foi coerente até morrer: era do Partido Comunista e acreditava em tudo o que ruim com o Muro de Berlim.

elianemoura em 09 de outubro de 2010

"Neruda era um comunista militante e convicto que, porém, não abria mão da boa vida." Qual comunista não gosta de boa vida? De preferência sem ter que trabalhar e com o dinheiro dos outros.

ana em 08 de outubro de 2010

http://www.consciencia.net/corrupcao/documentos/fhc-45escandalos.html

ana em 08 de outubro de 2010

É Sr. Ricardo, eu acrescentaria ao quanto mais famoso você for, "mais você fizer " mais ataques como esse vai receber "principalmente daqueles que não tiveram competência para fazer o mesmo". Por cada elogio, virão "muitos" insultos desses, os quais não caberiam em baú algum do mundo". Perfeito.

Ana Carol em 08 de outubro de 2010

Dilma responsabiliza Serra por ataques 'infundados' na internet Agência Estado Publicação: 08/10/2010 19:10 Atualização: A candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, se exaltou contra seu adversário José Serra (PSDB), nesta sexta-feira, durante uma entrevista coletiva em Brasília. Sem mencionar o nome do tucano, ela sugeriu que ele seria responsável pela onda de versões "infundadas" que a atingem na internet, afirmando, por exemplo, que ela seria favorável ao aborto. "Meu adversário utiliza métodos agressivos e infundados contra mim. Antes havia dez candidatos nessa campanha, agora só tem dois. Agora os boatos vão ter de ter uma origem", disparou. Dilma chamou de "métodos agressivos e infundados" a estratégia utilizada no programa eleitoral do tucano, que foi ao ar na tarde de hoje, de compará-la ao ex-presidente Fernando Collor (PTB). Diante de um retrato de Collor com a faixa presidencial, o locutor afirma que aquela foi a última vez que o brasileiro "elegeu um desconhecido" para a Presidência. Uma das táticas de Serra neste segundo turno será aprofundar a comparação entre a biografia dele, de político experiente, com a de Dilma, que nunca havia disputado uma eleição. Ao comparar Dilma a Collor, o programa tucano sugere que o eleitor errou ao votar em um desconhecido na eleição de 1989. Alvo de denúncias de corrupção, Collor sofreu impeachment e não concluiu o mandato. Depois da imagem de Collor, na sequência, surgem retratos dos ex-presidentes Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva e, por último, de Serra. Todos são apontados no programa como políticos confiáveis de biografias amplamente conhecidas pelo eleitor

Siará Grande em 08 de outubro de 2010

Pelo amor de Deus, só pode ser invenção do comitê do Serra: http://revistapiaui.estadao.com.br/herald/post_233/Amorim_diz_que_Nobel_de_Vargas_Llosa_e_resultado_de_politica_externa_brasileira.aspx Caro Siará, É humorismo puro, da revista Piauí. O "Piauí Herald" é uma espécie de "Casseta e Planeta" deles.

Marco em 08 de outubro de 2010

Caro R. Setti: As vezes os insultos contra nós,não são propriamente contra nós, mas pode se expressões de um despeito ou desgosto provindo de razões totalmente diversas! Abs.

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