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A deputada da direita populista Keiko Fujimori e o nacionalista de esquerda Ollanta Humala

Já se delineia no horizonte o que o escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2011, definiu como “tragédia” para seu país nas eleições presidenciais realizadas ontem: devem passar para o segundo turno, a realizar-se a 5 de junho próximo, dois candidatos com grande chance de jogar pela janela as impressionantes conquistas obtidas pelo Peru na última década.

(Leia sobre as eleições aqui).

Trata-se do nacionalista de esquerda Ollanta Humala e da deputada da direita populista Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, desde 2007 cumprindo pena de 25 anos de cadeia por crimes contra a humanidade.

Humala é um tenente-coronel da reserva que foi próximo a Hugo Chávez mas, por esperteza eleitoral, passou a se declarar distante do caudilho venezuelano e admirador do lulalato.

Humala é contra tudo o que fez o Peru melhorar

Defensor de um Estado intervencionista, prega a nacionalização de “setores estratégicos” da economia e mantém grande desconfiança contra a iniciativa privada e o capital estrangeiro – ou seja, o exato contrário de tudo que permitiu ao Peru um crescimento notável em 10 anos, muito acima da média latino-americana e que propiciou ao país saltar 23 posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU no período. (Hoje o Peru se situa em 63º lugar entre 169 países, 10 posições acima do Brasil).

Humala também não esconde sua ambição de controlar os meios de comunicação independentes do país, com a mesma conversa que tinha o pessoal ligado ao ex-ministro Franklin Martins no Brasil: seria preciso haver um “controle social” sobre a mídia.

Quanto a Keiko Fujimori, ela é temida pelos mercados por sua torrencial lista de promessas e uma tendência à gastança capaz de fazer o Peru retroceder no controle da dívida pública e da inflação. No plano político e moral, segundo Vargas Llosa, em entrevista publicada hoje no tradicional jornal La Vanguardia, de Barcelona, “significaria abrir os cárceres para que todos os ladrões, assassinos e torturadoreds, começando por seu pai, Alberto Fujimori, e o sinistro [Vladimiro] Montesinos [ex-chefe dos serviços secretos de Fujimori, também encarcerado por assassinatos e fornecimento ilegal de armas a terroristas colombianos], saiam às ruas para mostrar a língua a todos os que defenderam a democracia no Peru. Os criminosos passariam diretamente da cadeia para o governo”.

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Luís Castañeda, Pedro Pablo Kuczynski e Alejandro Toledo: três candidatos que representaram o centro

O centro é maioria, mas se dividiu “por insensatez”

Vargas Llosa votou no ex-presidente Alejandro Toledo – um reformista que assentou as bases para a prosperidade do Peru mas se envolveu em escândalos pessoais que lhe devoraram a popularidade. Sua análise sobre as eleições é premonitória.

“Aqui [no Peru] se enfrentam extrama esquerda e extrema direita, liderando as pesquisas, com um centro dividido em três partidos. Há três candidatos que representaram o centro [durante a campanha], com algum matiz mais à esquerda ou à direita, mas que são praticamente indiferenciáveis em seus programas de governo.

Luís Castañeda [ex-prefeito de Lima], Pedro Pablo Kuczynski [empresário, ex-ministro da Economia e ex-primeiro-ministro] e Alejandro Toledo continuariam com o modelo político, econômico e social que tem feito tão bem a este país ultimamente.

Na verdade, há uma maioria eleitoral que queria isso, mas o drama é que, dada à insensatez dos políticos, esses três candidatos se destroçaram uns aos outros, fizeram uma campanha feroz de guerra suja entre eles. E os extremos, Ollanta Humala e Keiko Fujimori, que são os que, sim, colocam em perigo o sistema, passaram praticamente intocados. Se as coisas forem assim, o Peru tem duas opções: o suicídio ou o milagre”.

Vargas Llosa também disse a La Vanguardia que escolher entre Humala e Keiko “é escolher entre a AIDs e o câncer”.

Leia a íntegra de sua entrevista aqui.

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8 Comentários

Kitty em 17 de abril de 2011

Prezado Ricardo, bom domingo!!!! Finally at home. O Blog está fervilhando de tantos excelentes textos!! Abaços

Lori em 12 de abril de 2011

Boa tarde, prezado Ricardo!!! Justamente hoje estava lendo este mesmo artigo,muito bom por sinal, nao acha? Realmente, o Premio Nobel esquentou a campanha e anunciou que votarâ em Toledo. Como nao poderîa ser de outra maneira, o consagradîssimo e sempre polemico, Mario V. Llosa, quer um segundo round para que Ollanta Humala nao ganhe as eleicoes. Solto de lîngua, ele expessou com todas as letras, que se vencesse Humala serîa uma catâstrofe!!!! O escritor peruano nao gosta das receitas ecomômicas de Ollanta, porque ê um nacionalista, ele defende um Estado intervencionista na ecomomia; a nacionalizacao de setores estratêgicos; grande desconfianca para a empresa privada; ao capital estrangeiro, e o pior de todo as medidas contra a libertade de imprensa. Em poucas palavras, Humala ê Châvez, com uma linguagem ligeiramente "abrasileirada". No outro extremo, Keiko Fujimori,significarîa abrir as prisoes para que todos os ladroes, assassinos e torturadores, comecando pelo seu pai, Alberto Fujimori fossem liberados e, assim, esnobar aqueles que defenderam a Democracia no Perû. To be or not to be, this is the question: Humala or Keiko? Nada fâcil a escolha dos peruanos. Como VC pode apreciar, sempre que posso acompanho o seu prestigioso BLOG e seus bem escolhidos textos!!!! Abracos.

Caio Frascino Cassaro em 12 de abril de 2011

Prezado Augusto: Lembra da eleição do Collor? Pois é, na época serviram ao povo brasileiro um sorvete chamado "kimerda": na frente vinha a cara do Collor, atrás a cara do Luiz Inácio. Os peruanos parece que querem nos repetir, com 22 anos de atraso. Um abraço

Jefff em 12 de abril de 2011

Esses candidatos "intelectuais" tem uma dor de cotovelo e uma vaidade sem limites. E como se dissessem: Como e que pode essa gentinha não votar em mim?

alberto santo andre em 11 de abril de 2011

que os deuses tenham pena da burrice dos eleitores peruanos ,e que lhes tenham complacencia, para que nao tenham no governo a mediocride que temos no brasil do partido das trapacas.

SergioD em 11 de abril de 2011

Ricardo, MVL sempre proferiu opiniões contundentes, principalmente quando o tema era o seu amado Peru. Acho que um escritor de sua estatura falar o que falou ofende a imagem que a maioria do seus admiradores, grupo do qual sou participante desde a juventude, tem dele. O que fazer se o povo peruano esta seguindo o caminho atual? Falharam os políticos peruanos em esclarecer ao povo o que de bom vem ocorrendo no país? Falhou o presidente Alan Garcia em sua estratégia de não indicar candidato da APRA nessas eleições? Os analistas peruanos ouvidos por El Mercurio consideram o presidente como o grande perdedor do pleito pois encaram a sua manobra como tremendamente prejudicial ao desenvolvimento político do país. Devemos torcer para que o próximo eleito não provoque um retrocesso institucional no Peru. Um abraço

Expedito em 11 de abril de 2011

..."saiam às ruas para mostrar a língua a todos que defenderam a democracia no Peru. Os criminosos passariam diretamente da cadeia para o governo". No meu entender, essa Keiko está mais próxima do LULATO que Humala. É só esperar o resultado do jugamento dos mensaleiros.

Siará Grande em 11 de abril de 2011

Mario Vargas Llosa colocou o dedo na ferida. A América Latina não tem jeito nesta geração.

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