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A plataforma petrolífera Statfjord A, situada no mar do Norte a cerca de 200 quilómetros da costa norueguesa

VEJA mostrou recentemente alguns truques contábeis com que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, permite gastança ao governo enquanto, tecnicamente, mantém as contas públicas em ordem.

No meio dos coelhos retirados da cartola, figura o uso de 18 bilhões do chamado Fundo Soberano – uma massa de recursos teoricamente destinado a fazer investimentos no exterior para defender o país de futuras crises financeiras – para comprar ações de empresas estatais.

Agora, o governo decidiu realocar a dinheirama do Fundo Soberano para tentar conter a valorização do real, algo já comentado em outro post.

Ou seja, em vez de pensar no futuro, aqui no velho e bom Brasil pensamos em resolver o imediato, em fechar o caixa. Enquanto isso, um pequeno país de menos de 5 milhões de habitantes, como a Noruega, utiliza com sabedoria o mar de petróleo existente sob suas águas territoriais. Já juntou, desde os anos 90, um gigantesco Fundo Soberano de 464 bilhões de dólares – o segundo maior do mundo, logo após o de Abu Dhabi. O destino do dinheiro: as futuras gerações.

O Fundo Soberano norueguês tem dois objetivos fundamentais:

1) fortalecer a previdência social nas próximas décadas, para fazer frente ao progressivo envelhecimento da população e a diminuição da proporção entre pessoas ativas e aposentados;

2) Preparar o país para o declínio na produção de petróleo e, bem mais adiante, para o fim das reservas nas águas geladas do Mar do Norte.

SUPERÁVIT E DESENVOLVIMENTO HUMANO – O que alimenta o fundo são os impostos pagos pelas petroleiras, o dinheiro embolsado pelo governo norueguês por concessões a empresas privadas para exploração de petróleo no Mar do Norte e os dividendos que recebe por sua participação acionária na estatal petrolífera StatoilHydro (que não detém monopólios).

Vamos aproveitar para lembrar que a Noruega ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de Índice de Desenvolvimento Humano, elaborado pela ONU a partir dos dados sobre expectativa de vida, educação e renda per capita dos países.

E, além de seu belíssimo Fundo Soberano, em plena era de questionamento do modelo de estado de bem-estar social, o país se dá ao luxo de proporcionar a seus cidadãos benefícios como 10 meses de licença-maternidade com salário integral para mães com emprego.

Em contraste com quase todos os países ricos pesadamente endividados, a Noruega ostenta um orçamento superavitário e destina mais de 1% de seu PIB em ajuda a países pobres, enquanto a poderosa Alemanha, por exemplo, separa 0,4% para essa finalidade, e os Estados Unidos – mesmo depois de uma puxada para cima determinada pelo presidente Barack Obama – apenas 0,2%.

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21 Comentários

Gustavo Jardim em 27 de fevereiro de 2014

Noruega, país que adotou o Keynisianismo (modelo liberal de esquerda) e esfrega na cara de todo mundo que altos impostos, regulamentação estatal e políticas públicas de bem estar social é o caminho para surfar sobre as "marolas" da crise mundial!

Paulo Augusto em 04 de outubro de 2010

Caro Ricardo, Excelente matéria para nós brasileiros que, parece, teremos uma oportunidade única com os recursos do pré-sal. Parabéns pelo seu blog; você já demonstrou que é mais um craque no time e quem ganha somos nós leitores. Abraço! Caro Paulo Augusto, Obrigado por sua visita e seu comentário. Obrigado especialmente por ter-se interessado por uma área do blog -- assuntos internacionais -- que poucos leitores comentam. A seção "Vasto Mundo" anda meio parada nestes dias por razões que você entenderá: as eleições estão tomando muito a atenção dos leitores do blog, como de muita gente no país, não é mesmo? Um abraço, volte sempre. Ricardo Setti

fortruth em 26 de setembro de 2010

Este golpe da capitalização da Petrobras deve gerar notícias para os desinformados até o primeiro turno das eleições. É o que conta pra turma da bandalheira. Só espero que os pequenos trabalhadores brasileiros não tenham tirado dinheiro de suas reservas para esta aventura. Até o George Soros, dono de um dos maiores fundos de investimentos do mundo, desconfiou da maracutaia e saiu fora vendendo tudo o que tinha da Petrobras. Definitivamente, pra bom entendedor meia palavra basta.

Paulo Bento Bandarra em 26 de setembro de 2010

Pois é! Dilma promete resolver o problema da saúde (sem falar na educação, segurança, investimento) e o Governo se orgulha de ter adquirido 8% das ações de Petrobrás. Realmente a saúde vai continuar só nos discursos. Imagina FHC fazendo esta capitalização globalizada! Vendendo o país para os extrangeiros! Ou FHC dar 10 bilhões para o FMI! Ladrão do povo entregando o país para os estrangeiros! Diga-se, de passagem, que o atual presidente do PT aparelhou a Petrobrás por vários anos, junto com a Dilma Roussef, como "conselheira"! Podemos esperar na Petrobrás, portanto, coisas piores do que a Casa Covíl!

Anonimo em 26 de setembro de 2010

Ricardo Com certeza você errou de país: você está falando do brasil mais precisamente do estado de tocantins....

Celso em 25 de setembro de 2010

Bem vindo Ricardo. Eu não aguento mais o Reinaldão. Vida longa pra você. Obrigado pelas boas vindas, caro Celso. E fico constrangido com eventuais comparações com colegas blogueiros. Cada um tem seu estilo, sua forma de pensar, sua linha de trabalho, que respeito. Um abraço, volte sempre. Ricardo Setti

Oliveira em 25 de setembro de 2010

Ola Setti, moro no Canada, precisamente em Montréal e aqui o fundo soberano se chama Fonds des générations. E o dinheiro vem do « ouro azul » daqui, a hidroeletricidade. O Quebec é rico também em gaz de Xisto, que é ate agora inexplorado pois a discussão aqui, é esse recurso deve ser usado mais para frente, quando a «denatalité» se tornar um grande problema. Outra diferença que esse dinheiro é usado numa especie de BNDS deles, a Caisse d'Épagne para financiar novas tecnologias, principalmente no setor medico, para diminuir os custos do sistema de saúde. Parece ser um bom modelo pois assim a ciência pode progredir melhorando a vida da população e trazendo ate mesmo dividendos financeiros para o próprio fundo. Mais uma vez uma excelente escolha de assunto. Um abraço http://www.budget.finances.gouv.qc.ca/budget/2006-2007/fr/pdf/LeFondsGen.pdf Caro Oliveira, Muito obrigado por ler meu blog aí do Canadá, e por seu comentário interessante e informativo. Quer dizer que o Fundo Soberano se preocupa com as futuras gerações a ponto de tê-las no próprio nome? Sensacional! Idem a destinação de ganhos vindos dos recursos naturais à ciência. Vamos ver como o governo brasileiro vai se comportar em relação à riqueza contida no petróleo do chamado pré-sal. Espero que também essa dádiva da natureza não desapareça em gastos estéreis, como costuma acontecer num país com um Estado gordo, inchado, excessivo, que em vez de servir a sociedade, razão de existir, suga suas energias. Um abraço, volte sempre. Ricardo Setti

Márcio Martins em 25 de setembro de 2010

Contraponto: O Banco Mundial divulgou neste mês Setembro 2010 o resultado da avaliação sobre o desempenho da Gestão de Finanças Públicas no Brasil, baseada nas pontuações do programa PEFA (Public Expenditure and Financial Accountability). O Brasil recebeu 17 notas “A”, o que fez o país ultrapassar nações consideradas referência na gestão de finanças públicas, como a Noruega. With 17 “gold medals” Brazil beats Norway on the PEFA assessment! http://blog-pfm.imf.org/pfmblog/2010/09/with-17-gold-medals-brazil-beats-norway-on-the-pefa-assessment.html

Cesar Antonio em 25 de setembro de 2010

Ricardo, obrigado pela informação. Como vemos no Brasil os nossos governantes pensam no futuro, mas no deles e de sua familia, pe;lo que roubam, provávelmente nunca terão necessidade de aposentadoria do INSS.

Danilo Thomaz em 25 de setembro de 2010

Olá, Ricardo. Sou novo aqui na sua coluna - e quando digo novo, digo: estou aqui há poucos minutos. Mas aviso que vim para ficar. E motivos não faltam: análises sensatas, conteúdo diversificado e, sobretudo, nada do azedume e situação de alarme que tomou conta da imprensa - salvo as honrosas exceções de sempre - nos últimos tempos. É disso que nós - leitores e novos jornalistas (detenho os dois títulos) - precisamos. Aqui, volto a comentar. Porque o radicalismo e pobreza de argumentos das discussões dos últimos tempos, fizeram com que eu me calasse para acompanhar melhor os fatos e a repercussão dele. Assim, passadas as eleições, posso entender melhor o que o pleito de 2010 significa para a história do Brasil. Um abraço. Caro Danilo, Fiquei muito feliz com seu comentário, ainda mais por você ser colega de profissão. Obrigado pelas boas palavras sobre o blog. Espero que continue visitando este espaço. Um abraço pra você do Ricardo Setti

Fernando Montenegro em 25 de setembro de 2010

Li com todo respeito a sua apresentação de um fundo soberano exemplar -- o da Noruega, amplamente reconhecido como modelo paradigmático na literatura --, e concordo com suas observações sobre a influênca nefasta da atual formulação e implementação do FS brasileiro, mas gostaria de sugerir aos leitores que existem tantos fundos soberanos quantos países em que foram criados, e que a comparação não deve ser limitada ao ideal norueguês e o esquema brasileiro. Sei que a internet não e fonte confiável, mas achei útil o resumo (em inglês) em: > http://en.wikipedia.org/wiki/Sovereign_wealth_fund . Caro Fernando, Você tem razão, há inúmeros Fundos Soberanos. Pincei o da Noruega por ser tão exemplarmente preocupado com o futuro dos cidadãos do país. Abraço, volte sempre. Ricardo Setti

Antonio G em 25 de setembro de 2010

Caro Setti. A Veja está parecendo o meu Fluminense. Só traz craques para o time. Essa metáfora futebolística parece coisa do apedeuta, mas foi a que me ocorreu no momento. Estamos a anos-luz da Noruega. Seu artigo me remeteu ao início da década de 70.Brasil e Coréia do Sul eram muito parecidos.PIB's próximos, nada de petróleo, mas uma imensa vontade de crescer. O que fez a Coréia do Sul? Investiu pesado em todos os níveis da educação.Hoje, os brasileiros são felizes consumidores de LG,SAMSUNG,HIUNDAY e afins.Tudo com alta tecnologia. E o que fez o Brasil? Criou centenas de estatais,esqueceu-se da educação,criou reservas de mercado e transformou-se num grande exportador de produtos básicos. E o que faz o Brasil agora? A educação continua um lixo e vem mais estatais por aí: Petro não sei o quê, Bandalheira Larga,Empresa de Logística dos Correios, tudo cabide de emprego para a pelegada..Se continuar assim, o pré-sal irá para o mesmo ralo. O primeiro passo pode ser dado agora em 3 de outubro. Serra neles! Caro Antonio, Se "trazer craques para o time" se referir a mim, agradeço, honrado. Você traz muito bem o exemplo da Coréia do Sul. Mas a coisa fica ainda mais dramática se compararmos com a década de 50, quando o PIB da Coréia ficava muito atrás do do Brasil. Hoje a Coréia do Sul é país de Primeiro Mundo. Obrigado por sua visita e por seus comentários. Use e abuse deste espaço. Um abraço do Ricardo Setti

Sergio em 25 de setembro de 2010

Ricardo, estou aqui mais uma vez. Não devemos esquecer que a Noruega já era uma país social e economicamente desenvolvido quando da descoberta de suas imensas jazidas de petróleo e gás. Uma sociedade com os problemas típicos dos povos desenvolvidos que partiu para utilizar a grande riqueza do petróleo para manter, de forma inteligente, o seu patamar de desenvolvimento. O Brasil ainda enfrenta mazelas sociais imensas (educação, saúde, habitação, informalidade no mercado de trabalho, ...) que ainda levarão algumas gerações para serem resolvidos. O importante seria que a sociedade fizesse um pacto sobre o que fazer com a imensa quantidade de recursos que advirão com a exploração do pré-sal. Que problemas atacar prioritariamente. Paixões políticas amplificadas pelo calendário eleitoral, no entanto, estão poluindo esse debate. Espero que o próximo governo, e a oposição, sejam eles que forem, discordem no varejo e, numa questão fundamental como essa cheguem um consenso mínimo pelo bem das futuras gerações. Que assim seja, Sergio. Também espero. Um abraço do Ricardo Setti

Eddie Moraes em 25 de setembro de 2010

Olá Setti, estou visitando pela primeira vez esse espaço e fico feliz por perceber que você está discutindo o Brasil em alto nível. Estamos precisando disso. Serei assíduo leitor. Quanto ao texto acima, creio que falta muito ao nosso país: maturidade política, um mínimo padrão de educação ao povo, aplicação das leis (que são boas) e humildade para copiar e adaptar o que está dando certo em outros países. Mas infelizmente acho que vai demorar muito ainda. É isso. Abraço. Eddie Moraes - Itajaí - SC Caro Eddie, Obrigado pelo comentário tão simpático e pelas boas referências ao conteúdo do blog. Infelizmente devo concordar com você em que ainda falta muito ao nosso país. De todo modo, já estivemos pior, progredimos muito nos últimos 30 anos. Bom saber que tenho um leitor em Itajaí. Gosto muitíssimo de Santa Catarina. Um abraço do Ricardo Setti

Markito-Pi em 25 de setembro de 2010

Brilhante, como sempore, Setti. A Noruega monárquca, funciona e bem. Lá, nenhum governante seria analfabeto. Não ha analfabetos. Lulas, Erenices e Dilmas inexistem. Ou estariam em confinamento, em zoólógicos,como specimens perigosos. Caro Markito, Obrigado pelo "brilhante". Volte sempre, já estou me acostumando com você... Abração do Ricardo Setti

lucent durans em 25 de setembro de 2010

Para que algo assim aconteça, os seres humanos da Noruega, tem que estar imbuidos de um sentimento de comunidade, respeito uns pelos outros e uma grande, imensa dose de civilidade, mesclada a inteligência,honestidade,e boa vontade, coisa que no Brasil, é meio difícil de se encontrar. Um abraço meu caro Setti, seus artigos são realmente muito bons. José Henrique

oz em 25 de setembro de 2010

Corrigindo o comentário anterior leia-se mitificação... pois embora mitico nosso governo ainda não é mistico, embora tente.

oz em 25 de setembro de 2010

Mas com certeza melhor que ser norueguês e ser brasileiro, com o melhor governo da historia da humanidade, que já fez tanto mais que qualquer outro, em qualquer país. Pena que entre a mistificação e a realidade haja uma enorme distância, que faça do Brasil o que é e da Noruega o que poderiamos ser.

RitaZ em 25 de setembro de 2010

Olá Setti! minha primeira vez aquí e um prazer! Será que nosso querido país não estária perto desse valor gigantesco (como o Brasil) se nosso dinheiro não fosse bebido com 51? A Noruega é um exemplo de um país rico e sobretudo generoso. Que inveja! Inveja das boas, rs []s......RitaZ Oi, Rita, o prazer de sua primeira visita é meu! O Brasil tem tudo para ser um colosso. O principal problema nosso reside no Estado: gordo, corrupto, ineficiente. É dele e de seus organismos que parte o câncer desmoralizador e tenebroso chamado IMPUNIDADE. Tenho um sobrinho que estudou por meio ano na Noruega e realmente ficou abismado com o nível de progresso, riqueza, justiça social e paz existente no país. Obrigado por aparecer, volte sempre. Um abração do Ricardo Setti

Marco em 25 de setembro de 2010

Caro R.Setti : Congratulações pela reportagem é isso aí tem q mostrar q ha vida e bem melhor do q o petismo e o populismo. Vou te cobrar mais... Valeu ! Caro Marco, Obrigado pelas congratulações. E pode me cobrar mais, sim. Não se esqueça, porém, de que, sozinho, tenho minhas limitações para apurar tanta coisa que me sugerem. Abraços do Ricardo Setti

Joao Santos em 25 de setembro de 2010

Poderiamos, mesmo no regime de concessao, criar esse FS, sem o monopolio da Petrobras, nas operaçoes do pre-sal. Otimos exemplos, nao sao seguidos. Com essa corrupçao solta, na Casa Civil da Presidencia da Republica, fico a imaginar, que nenhum governo tera respeito pelos cidadaos.

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