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O Teatro da Ópera de Roma: com “Nabucco”, manifestação simbólica que marca o começo do fim de Berlusconi

Foi provavelmente o dia em que o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi começou a cair. Aconteceu no Teatro da Ópera de Roma, durante a apresentação da ópera Nabucco, de Giuseppe Verdi , a 12 de março de 2011 — dia em que se comemorava os 150 anos da unificação da Itália –, com Berlusconi presente.

Àquela altura, o país mostrava sinais de estar farto dos desmandos do primeiro-ministro – a manipulação em leis para protegê-lo de processos, a obstrução da Justiça, o comportamento debochado, os flertes e bilhetinhos obscenos enviados a deputadas no Parlamento, seu envolvimento com prostitutas e com uma menor de idade.

Em dezenas de cidades da Itália, já haviam ocorrido marchas de protesto contra a atitude de Berlusconi para com as mulheres.

Germinava-se o clima que levaria a grandes derrotas eleitorais do primeiro-ministro ao longo do ano, inclusive em sua cidade-fortaleza política, Milão.

A ópera de Giuseppe Verdi inclui a ária Vá Pensiero, cantada, na história que versa sobre o rei Nabucodonosor, da Babilônia, por um coro de escravos judeus, saudosos da pátria de onde foram exilados após a queda do Primeiro Templo de Jerusalém.

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O maestro Riccardo Muti: “Tenho vergonha do que acontece no meu país”

Cheia de metáforas e alusões, escrita em 1842, quando a Áustria dos Habsburgos dominava as regiões italianas de Piemonte, Lombardia e Veneto, era considerada uma espécie de segundo Hino Nacional e cantada como manifestação nacionalista contra a ocupação austríaca.

«Há situações que não se pode descrever, mas apenas sentir ; o silêncio absoluto do público, na expecativa do hino, o clima que se transforma em fervor, aos primeiros acordes”, diria depois à revista Time o maestro Riccardo Muti, que conduziu a orquestra naquele dia.

A reação calorosa do público quando o coro entoa “Ó minha pátria, tão bela e perdida…” terminou com intensos aplausos que interromperam a apresentação, e o público passou a se manifestar com gritos de “bis” e “Viva a Itália”, enquanto das galerias eram lançados papéis com mensagens políticas.

Muti hesitou, por não haver o hábito de bis em óperas, mas, diante do calor do público, acabou adotando uma atitude completamente inusual: voltou-se no púlpito, ficou de frente para a platéia, encarou o próprio Berlusconi, no camarote de honra, e falou.

Alguéum gritou «longa vida à Itália!», e Muti começou:

«Sim, longa vida à Itália mas … [aplausos]. Não tenho mais 30 anos e já vivi a minha vida, mas como um italiano que percorreu o mundo, tenho vergonha do que se passa no meu país. Portanto concordo com vosso pedido de bis para o Vá Pensiero. Isto não se deve apenas à alegria patriótica que senti em todos, mas porque nesta noite, enquanto eu dirigia o coro que cantava “Ó meu país, belo e perdido…”, eu pensava que a continuarmos assim mataremos a cultura sobre a qual se assenta a história da Itália. Neste caso, nós, nossa pátria, será verdadeiramente bela e perdida! [aplausos intensos, incluído os dos integrantes do elenco]. Reina aqui um ‘clima italiano’. Eu, Muti ,me calei por longos anos. Agora, porém, acho que deveriamos dar sentido a este canto; Como estamos em nossa casa, o teatro da capital, e com um coro que cantou magnificamente, e que é magnificamente acompanhado, se for de vosso agrado, proponho que todos se juntem a nós para cantarmos juntos »

Todo o público se pôs de pé. O coral também. Na reprise, com o público ainda de pé, pessoas choravam na plateia e no coro. Não havia dúvida de que cantavam contra os desmandos e a imoralidade de Berlusconi e em prol dos valores que fizeram a grandeza da Itália.

Veja — e se comova:

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19 Comentários

fpenin em 01 de janeiro de 2012

Falta muito em civilidade para que o brasileiro atinja esse nível.Aliás,não precisa ir muito longe,é só tomarmos o Chile como exemplo. No Pará, o senador Jáder Barbalho recebeu aproximadamente 1.800.000 votos,apesar de toda a sua vida pregressa. Precisa falar mais?

pericles em 31 de dezembro de 2011

O meu comentário está bem atrasado! Primeiro, estamos precisando de um Ricardo Mutti!! Segundo, no seu texto, você diz que os Habsburgos austríacos dominavam o Piemonte, a Lombardia e o Veneto. O Piemonti não! Foi dali que partiu o movimento de unificação, liderado pelo rei Vitor Manoel e pelo primeiro ministro Conde de Cavour.

Abílio Santos em 25 de dezembro de 2011

Belissimo!! Obrigado por nos trazer este vídeo Ricardo. Do ponto de vista simbólico é a vitória da cultura, do belo sobre o grotesco! São momentos fortes como este que fazem as sociedades dignas! Como não acreditar numa sociedade que dá esta lição de sensibilidade, civismo e elevação? Uma vez mais, obrigado. Abraço

Ailton em 25 de dezembro de 2011

Os 89% de votos para Wagner, em cada uma das duas eleições, foi a resposta que cada baiano deu para essa famiglia, Nos baianos, nunca mais vamos aceitar que um aventureiro se arvore dono do nosso estado.

Ailton em 25 de dezembro de 2011

A Itália se sente da mesma forma que a Bahia se sentiu ao se livrar dos grilhões do patriaca dessa famiglia mafiosa. Enquanto o Caixão do alcaíde descia a sua catacumba, surgia um grande sentimento de renascimento em cada Bahiano. Caudilho controlou o meu estado com mão de ferro, captalizou um gigantesco patrimonio as custas de merenda escolar e saúde pública. O patriarca dessa famiglia costumava matar os dissidentes, criticos e opositores de seu regime. Meu estado caiu da quarta posição das economias brasileiras para a vigésima em 30 anos de oligarquia, estado empobreceu depois que foi seqüestado por esse mafioso, homem que não fez outra coisa na vida a não ser roubar, famiglia é detentora de U$1.0bi distribuidos entre sí, dinheiro foi retirado(desviado) da merenda escolar, da saúde e obras públicas, principalmente obras públicas que sempre ficaram inconclusivas, até o aeroporto que seria batizado com o nome de um membro dessa familia, sofreu um desfalque de R$120 milhões, na época, até FHC se recusou a cobrir o rombo, estado da Bahia pagou pelo desfalques.

jose xavier em 25 de dezembro de 2011

Fabuloso. Boas Festas.

Paul em 25 de dezembro de 2011

Que diferença de política cultural, já estamos cheios do lixo que nos impõe na tv brasileira, alem do lixo político.

Mari Labbate *44 Milhões* em 25 de dezembro de 2011

VIVA A COLÔNIA ITALIANA DO SUL DO BRASIL! Com certeza, esse ESPETÁCULO DE AMOR À PÁTRIA servirá de inspiração para os anestesiados brasileiros... FELICE NATALE, caro fratello SETTI! E um ANNO realmente NUOVO, em sua VITA! BACIO! Em nome do Ricardo Setti, agradecemos e retribuímos os bons votos, cara Mari. Equipe do blog.

Giovani P.de Oliveira em 24 de dezembro de 2011

Se a apresentação fosse no Brasil, acho que o sentimento seria o mesmo.

lavinia em 24 de dezembro de 2011

Quanta emoção! QUANTO PATRIOTISMO! QUE PRAZER OUVIR MÚSICA QUE TOCA NOSSA ALMA! OBRIGADA! FELICIDADES NO NOVO ANO!

luca em 24 de dezembro de 2011

sou Italiano........esta è demagocia pura! Agora no goberno tenhemos gente da financia mundial elegida da ninguem mas amigos da finacia internacional que esta matando a Europa.

Kitty em 24 de dezembro de 2011

Caro Ricardo, como fazer para não chorar!Emoção á flor da pele!Essa música me acompanha desde sempre, e, sempre acontece a mesma coisa choro, sim caro Ricardo,reconheço que sou super sensível,mas sou uma italiana orgulhosa da minha pátria, com todos os problemas, com todos os defeitos!Que texto maravilhoso e que música inspiradora. Não existe melhor presente que este que você me proporcionou, na véspera de Natal!Agradeço de todo coração. Um abração caro amigo Ricardo Querida Kitty, fico muito feliz que tenha gostado. Um grande abraço e Feliz Natal

Célia Campos em 23 de dezembro de 2011

Quem tem raça e vergonha na cara tem ! parabéns ao povo italiano que preza e respeita pelo seu país !

Marbene Araújo Bueno em 23 de dezembro de 2011

Olá Ricardo, Cheguei na Itália vindo de Chamonix na véspera da queda do 1º ministro. Fui a passeio com meu filho e por lá ficamos 10 dias na Toscana. Magnífico! Estou contando em um modesto blog nossas andanças e gostaria de saber se existe algum empecilho em postar esse vídeo (com alguns comentários seus aqui)-com os devidos créditos- em agradecimento àquele povo que nos recebeu tão bem? Obrigado e parabéns pelo post sensacional. Prego! Que inveja, Marbene! E pode, sim, postar o vídeo. Um grande abraço e Feliz Natal

Teresinha em 23 de dezembro de 2011

Espero que inspire os brasileiros pois a Pátria Amada Idolatrada (erroneamente) Salvem-a, Salvem-a!. . Quanta emoção, quanto patriotismo, que lindo!

Lucia Ayello em 23 de dezembro de 2011

A direfença é clara, na Italia cantam ópera, enquanto no Brasil, os soldados dançam o Hino nacional som de funk. Pobre Brasil!

Reynaldo-BH em 23 de dezembro de 2011

Obrigado pelo belíssimo presente de Natal! São momentos assim que ainda me fazem acreditar no futuro, na cultura, na história e na força do que nasce da cidadania. Do sentimento de Nação. Emocionante! Um dia viveremos momentos assim no Brasil. Já os vivemos. Foram esquecidos, momentaneamente. Um dia teremos o orgulho dos espanhóis. A certeza da história que cada português tem. Na apreço à cultura como os italianos. Para ficarmos nos exemplos latinos. São diversos mundo afora. Que o desprezo ao passado, o engano como métrica de quem não tem medidas e a mentira como práxis social sejam sepultadas no Brasil. Mais uma vez obrigado, amigo Setti. Por vezes a raça humana ainda parece ter um futuro digno deste nome. Abraços Reynaldo.

Quésia Cunha em 23 de dezembro de 2011

A arte impulsionando o povo a reagir e buscar sua identidade enquanto nação digna! Viva!

Claudio Malagrino em 23 de dezembro de 2011

Eles vão se recuperar pois têm vergonha na cara -- o que por aqui nunca tivemos.

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