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Assim é que se faz: todos os setores do chamado “barcelonismo” deixaram as diferenças de lado para homenagear o grande capitão Carles Puyol, em sua despedida do futebol  (Foto:Miguel Ruiz/FC Barcelona)

O evento aconteceu no dia 15 de maio. Mas ainda repercute e me chama especialmente a atenção.

Estou falando da despedida futebolística de Carles Puyol, um dos jogadores que melhor vi representarem valores como raça e lealdade dentro de um campo, além de ter sido um belíssimo zagueiro, desses que não desistem da bola até o último centésimo de segundo. Se tiverem tempo, assistam na íntegra neste link.

Após 19 anos de carreira inteiramente dedicados ao F. C. Barcelona, dez dos quais como capitão do time principal, o grande becão da cabeleira inconfundível decidiu não apenas abandonar os quadros do clube – conforme anunciara em março, ainda considerando a possibilidade de vestir outra camisa – como também encerrar a carreira, que incluiu longos anos como titular da seleção da Espanha.

O motivo principal foi o histórico de lesões que Puyi enfrentou nas últimas temporadas. “Este ano, por causa dos problemas físicos, quase não pude jogar, e dificilmente poderei jogar futuramente em outro lugar”, afirmou no dia do adeus.

Quinze dias depois, Puyol foi anunciado como novo membro da direção de futebol da entidade, comandada por outro ex-ídolo, o ex-goleiro do Barça e da Seleção espanhola Andoni Zubizarreta.

Futebol e civilidade

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Na segunda fileira, da esquerda para a direita: Camacho (ex-Real Madrid), o ídolo Cruyff e Hierro (também ex-Real Madrid) (Foto: EFE)

À parte de aludir diretamente ao fato de que o mundo da bola perde um jogador vencedor – nada menos que 21 títulos pelo Barça, uma Copa do Mundo e duas Eurocopas pela seleção espanhola – e de caráter exemplar, o evento que celebrou o pendurar de chuteiras do ídolo também se destacou por outras razões, que transcendem o futebol.

Em amostra de que os grandes clubes europeus estão, sim, a anos-luz dos brasileiros em matéria de civilidade e respeito aos esportistas, compareceram ao ato e se cumprimentaram adversários políticos de longa data, como os ex-presidentes da entidade Josep Lluis Núñez (1978-2000) e Joan Laporta (2003-2008).

O grande Johan Cruyff, ex-jogador, treinador e presidente de honra do clube, foi visto conversando amigavelmente com Zubizarreta. As desavenças entre o mítico holandês e a atual direção – da qual faz parte o ex-goleiro – vêm de anos atrás.

A estas figuras políticas se juntaram a família de Puyol, todo o elenco atual e inclusive ídolos do arquirrival Real Madrid, como o ex-zagueiro Fernando Hierro e o ex-lateral esquerdo José Antonio Camacho. Até Jordi Rios, o ator que imita o homenageado no bom programa de humor Crackòvia, da rede televisiva catalã TV3, marcou presença.

Além do próprio Puyol, falaram durante a solenidade Zubizarreta e o presidente Josep Maria Bartomeu, que leu texto definindo o jogador como “fiel, sincero, pontual, sensato, afetuoso e de uma bondade extraordinária”.

Em depoimentos gravados, prestaram seus tributos, falando e agitando a faixa de capitão com as cores da Catalunha, diversos companheiros, como Andrés Iniesta, Gerard Piqué e Daniel Alves.

Também colaboraram ex-treinadores, como o holandês Louis Van Gaal e o recém-demitido argentino Gerardo Martino, e ex-companheiros de vestiário, tal qual o holandês Patrick Kluivert. Falaram às câmeras ainda figuras que conviveram com Carles em ambas as situações: Pep Guardiola e Luis Enrique, que dias depois seria anunciado como o novo técnico do Barça.

Discurso de Xavi

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Gesto carinhoso de Xavi a Puyol: quinze anos de convivência e muitos títulos (Foto: Eduard Omedes – Mundo Deportivo)

Um dos momentos mais emocionantes, porém, foi o discurso proferido por Xavi Hernández, craque também veterano, que agora assume oficialmente a faixa de capitão.

Segundo setores da imprensa catalã, a amizade entre os dois, que dura quinze anos, vinha estremecida nos últimos tempos supostamente por causa da ausência de Puyi no casamento de Xavi no ano passado.

“Estou muito orgulhoso de compartilhar todas nossas carreiras juntos”, disse o meio-campista. “Você é patrimônio do Barça”, continuou, aproveitando para convidar o parceiro a realizar algum projeto juntos no Barça futuramente. O próprio Puyol, aliás, declarou que gostaria de trabalhar com as divisões de base da entidade.

Apenas Sandro Rosell, o presidente que se viu obrigado a pedir demissão em janeiro diante de sua incapacidade de explicar os gastos na contratação de Neymar, não compareceu.

Como afirmei no post de março, existem várias maneiras possíveis de celebrar a trajetória de Puyol. Mas, aproveitando que sua camisa é a 5, separei cinco vídeos publicados no YouTube que ilustram diferentes facetas da grandeza do jogador:

-O raçudo

Em jogada válida pela Champions League 2002-2003 contra o Lokomotiv russo, o goleiro já estava vendido quando Puyol se atirou com o corpo (e a alma) para salvar um gol já dado como certo. A bola bateu no escudo do Barça e não entrou.

-O capitão

Nos grandes clubes europeus, a figura do capitão do time ainda tem muito valor. Eles representam a equipe em eventos, proferem discursos em estádios lotados e ajudam a orientar os demais dentro e fora de campo. Neste episódio ocorrido em jogo contra o Rayo Vallecano pelo Campeonato Espanhol 2011-2012, Puyol correu para chamar a atenção dos brasileiros Daniel Alves e Thiago Alcântara que, após um gol do segundo, celebravam com uma de suas polêmicas dancinhas. Puyi fazia assim o papel de voz do treinador – no caso, Pep Guardiola, que não suportava as coreografias.

-O catalão

Orgulhosíssimo de suas origens  – nasceu na cidadezinha de Pobla de Segur – Puyol integra o grupo de jogadores que, embora defendam com afinco a seleção espanhola, o fariam ainda com maior intensidade caso a Catalunha se tornasse um país independente e tivesse sua própria seleção oficial.

O auge de sua demonstração de amor catalão ocorreu na goleada por 6 a 2 aplicada pelo imbatível Barça de Guardiola no Espanhol de 2009. Ao anotar um gol, Carles tirou a faixa de capitão com as cores da senyera, a bandeira da Catalunha, a beijou e a exibiu, com satisfação mas sem desrespeito, aos quase 100 mil torcedores do espanholíssimo Real Madrid no estádio Santiago Bernabéu.

-O espanhol

Na seleção espanhola, Puyol é quase tão lendário. Disputou três copas – 2002, 2006 e 2010 -, acompanhando, portanto, o surgimento a e consolidação desta geração de ouro da Roja. E não só: quem se esquece que foi dele um dos gols mais decisivos da conquista do caneco na África do Sul, o da semifinal contra a Alemanha? O golaço emocionante e espetacular levou a Espanha à finalíssima (e à vitória) contra a Holanda.

-O ser humano

Carles Puyol foi o capitão do Barça em três conquistas da cobiçadíssima Champions League Europeia.

Em 2006 e 2009, ergueu com sua típica bravura os pesados troféus. Em 2011 em Wembley, porém, fez algo muito maior: na hora H, sem avisar a ninguém, entregou a faixa ao companheiro Eric Abidal, que enfrentava uma luta contra um câncer, e lhe concedeu a honra.

O mundo se emocionou. Abidal agradeceu novamente o gesto em vídeo exibido na cerimônia de despedida, e Xavi também mencionou o episódio em seu discurso. (vejam a partir do tempo 1’33” do vídeo).

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Nenhum comentário

Antoninho em 09 de junho de 2014

Esse é outro dos raros exemplo de q é venerado até pelos adversários e q todo mundo gosta de prestar homenagem. Tem alguns q dentro do campo sao idolos e fora é melhor se manter em silencio.

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