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FHC, MST, racismo, ditaduras e muito mais em entrevista com o brasilianista Thomas Skidmore

Então acumulando 35 anos de estudos sobre o nosso país, repartidos em diversos livros sobre diferentes períodos históricos e assuntos pontuais, o brasilianista americano Thomas Skidmore, foi o entrevistado do “Roda Viva”, da TV Cultura, em 23 de junho de 1997.

À época, eu era diretor de redação da Playboy e participei da bancada comandada por Matinas Suzuki, em companhia de Paulo Henrique Amorim (Jornal da Band), Fernando Mitre (Jornal da Tarde), Daniela Hart (Time), Fernando Canzian (Folha de S. Paulo), Heródoto Barbeiro (TV Cultura/CBN) e Luiz Felipe de Alencastro (Unicamp/Cebrap).

Skidmore respondeu a pergunta minha sobre a imagem que os EUA passaram a ter do Brasil após a política de abertura de mercado e inserção do país na comunidade internacional implementada pelo governo Fernando Henrique Cardoso. “[A percepção sobre o Brasil] mudou: o sinal mais óbvio é dos banqueiros, e também do pessoal que está aqui para arranjar fundos de investimentos para os americanos”, opinou. “Mas o Brasil ainda não fica muito claro para os Estados Unidos”.

Ainda dentro da mesma resposta, Skidmore demonstrou uma preocupação: “o Brasil está mandando 3 bilhões de remessa [de lucro] para McDonalds, Nestlé, Coca-Cola… coisas que não têm nada a ver com tecnologia, que é a coisa mais importante para o Brasil. O que me preocupa é a intensidade da economia de consumo no Brasil”. Em outro momento do programa, ele cravou: “quem manda no Brasil é o Banco Central”.

Racismo no Brasil

Também indaguei o professor sobre seus períodos de alternância entre otimismo e pessimismo com relação aos rumos do país. “Tem muita coisa que está melhorando no Brasil”, respondeu. “No ano passado, participei de um seminário em Brasília chamado ‘as relações raciais no Brasil e as affirmative actions [“ações afirmativas”, expressão american para as cotas]‘. Affirmative actions no Brasil é palavrão! Não pode falar isso? E isso foi patrocinado pelo Ministério da Justiça. O presidente Fernando Henrique Cardoso condenou claramente a discriminação racial no Brasil. Um fato inédito no Brasil!”.

Skidmore se aprofundou no tema do racismo e nas possíveis formas de combatê-lo. “Tem um exemplo legal aqui na USP: um programa pré-vestibular para negros”, afirmou. “Porque o problema é que os negros geralmente não têm a formação para passar no vestibular, e estão fazendo um curso só para eles. Para fazerem o caminho legítimo e entrar na universidade”.

O professor se disse também impressionado com a “capacidade da intelectualidade de negar os fatos da discriminação racial”, citando ainda a discriminação econômica. Para ele, no entanto, “o que felizmente não existe no Brasil é o ódio; nos Estados Unidos temos a negrofobia. Isso não existe aqui”. O entrevistado apontou, ainda, avanços na igualdade racial ao longo das décadas.  Na minha experiência aqui no Brasil, é  muito mais frequente pessoas de cor, no comércio”, disse. “Isso não era possível quando cheguei, em 1961”.

O que melhorou no país

Respondendo sobre quais teriam sido outras melhoras do Brasil ao longo de seu período vivendo no país, Skidmore mencionou as indenizações concedidas a famílias de mortos e desaparecidos durante a Ditadura Militar. “Uma coisa que o Chile não fez, Argentina não fez, Uruguai não fez”, ressaltou. “É o reconhecimento da responsabilidade da sociedade”.

De acordo com ele, também, vae destaque o plano de estabilização econômica de FHC, ” um dos mais inteligentes, mais bem aplicados” da América Latina e que “melhorou o padrão de vida” das pessoas.

 A visão sobre o panorama de então

Em diferentes passagens da entrevista, o ocupante da cadeira central da roda demonstrou seu apreço por Fernando Henrique, a ponto de ser perguntado se se tratava do maior presidente de todos os tempos (“prefiro Juscelino”, rebateu). Mesmo, assim, fez ressalvas. “Qual a visão do Fernando Henrique Cardoso?”, perguntou. “Ser responsável, administrar… é muito competente, muito inteligente, tem muito charme… mas qual é a sua visão?”.

É curioso também ver como Skidmore enxergava o que já era um problemão na política e que persiste até hoje, o fisiologismo do PMDB, destacando o “vácuo político e intelectual” do partido. Ele também sublinhou o que considerava os principais problemas da nação. “Ao  eu ver, o mais importante é a educação pública, que está em ruínas no Brasil”, opinou em um momento;  “o mais importante [para a distribuição de renda] é o crescimento e o declínio na taxa de natalidade, que talvez vai ser o fator mais importante nas próximas décadas”, assinalou em outro.

A pauta também passou pelo Movimento dos Sem Terra e sua não assimilação pelo sistema partidário brasileiro. “Na história do Brasil, não tem nenhum movimento de êxito na história da reforma agrária”, defendeu. “A oligarquia rural aqui domina tão bem com as ligações com as lideranças urbanas. O exemplo maior é a Assembleia Constituinte, quando a Esquerda, tão poderosa, tentou introduzir a reforma agrária e… booom” Veio a UDR e eles liquidaram totalmente. Ninguém falava mais da reforma agrária. Então duvido da capacidade do núcleo urbano de simpatizar com o MST. O MST está no vácuo das notícias”.

(Assista à íntegra do programa aqui)

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