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No “Roda Viva”, com FHC: em plena crise do governo Dilma, o ex-presidente fala de Lula, Cunha, maconha, compra de votos, reforma política e muito mais

Com apresentação de Augusto Nunes e bancada composta por Eliane Cantanhêde (O Estado de S. Paulo), Sérgio D’Ávilla (Folha de S. Paulo), Vera Magalhães (VEJA), João Gabriel de Lima (Época) e por mim, a oitava edição do “Roda Viva” com Fernando Henrique Cardoso – segundo suas próprias contas – foi ao ar em 26 de outubro de 2015. Na ocasião, o ex-presidente lançava o primeiro dos quatro volumes de Diários da Presidência, livro contendo observações que fez a um gravador sobre seu trabalho o período 1995-1996.

“Esse negócio de morrer é chato”, brincou FHC, ao explicar, a uma pergunta minha, sua mudança de ideia em relação à publicação destas anotações ainda em vida. Ele me garantira pessoalmente que só deixaria o material sair à luz após sua morte durante o período em trabalhei com ele. como contratado da Editora Record, na edição de seu livro de memórias políticas – A Arte da Política: a História que vivi (2006). “Talvez seja arriscado, você faz injustiças”, acrescentou, ainda falando sobre o ato de publicar memórias em si. “Mas eu tenho formação acadêmica, não vou falsificar a história”.

Perguntei qual foi o motivo mais forte para sua decisão de ir adiante com os volumes. “É preciso ver que isso [as grandes questões do país que passam pelo governo] é um processo: neste livro, você já sente elementos da situação atual, o começo da dificuldade, da desfragmentação [política]”, explicou. “Neste novo livro, eu conto que tentei fazer um conselho com presidentes de partido. Depois eu descobri que não adiantava, que os presidentes não mandam no partido. Os partidos não são verdadeiramente partidos”.

Ingovernabilidade e os partidos

Em seguida, FHC respondeu outra pergunta minha sobre a impossibilidade de se governar um país com mais de 30 partidos. “E 39 ministérios!”, acrescentou, antes de ressaltar: “qualquer um de nós, hoje na Presidência, está enrolado. Como você forma maioria?”. Ainda segundo o ex-presidente, “você não está no governo para ter popularidade. Está para cumprir um objetivo nacional, defender os seus valores”.

Sobre a falta de renovação nos quadros de seu partido, FHC celebrou a existência de três nomes com potencial de candidato à Presidência – Serra, Aécio e Alckmin –, e disse não ter “nada contra” primárias na legenda. “O PT e o PSDB representam projetos que, bem ou mal, embora tenham similitudes, têm diferenças”, apontou. “A democracia foi mais facilmente aceita pelo PSDB, porque veio do PMDB. O PT não era assim, porque não era dessa corrente. Foi uma fusão da base católica com base popular, a base sindicalista e a corrente revolucionária arrependida. Nenhuma delas punha em primeiro lugar a questão da democracia” (…) “A aspiração [do PT] era à hegemonia, e não à alternância.”

Lula e Cunha

Inevitavelmente, surgiram no programa perguntas sobre seu sucessor na Presidência da República, Lula. “Acho que eu conheço um pouco mais de história do que o Lula; sempre fui, mesmo na Presidência, ativo intelectualmente”, afirmou. “Quando eu saí da Presidência, fui dar aula nos Estados Unidos. E nunca deixei de ter minha vida pessoal. Cada um tem o seu jeito. Pode até me criticar: eu, de alguma maneira, abri mão de ficar controlando o PSDB. Achei que não era o meu papel. O Lula achou o contrário: que ele tinha que continuar lá, encarniçadamente. Ele tenta influenciar [Dilma]. É até natural que tente”

Outro citado foi o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. “Eu tinha a vaga ideia do nome Eduardo Cunha”, recapitulou. “Não era um personagem, era alguém que era funcionário de uma empresa e que o presidente Itamar, ou alguém por ele, tinha afastado do cargo [na Telerj]. Em um dado momento, alguém da bancada do Rio veio me pedir para nomeá-lo para na posição na Petrobras. Disseram “não sai a nomeação porque o Eduardo Jorge não deixa”. Não, não sai a nomeação porque já teve problemas com este nome. Depois, eu nunca mais ouvir falar de Eduardo Cunha, Fui conhecê-lo recentemente.”

O fracasso do sistema partidário

FHC fez duras críticas ao sistema partidário brasileiro. “Nosso sistema partidário fra-cas-sou”, ressaltou. “Disse isso, inclusive, a todos os presidentes, quando fomos juntos em viagem à África do Sul” (…) “É um sistema que tende à desfragmentação do Congresso”.  Para ele, “hoje, a política dança no ritmo das crise econômica e do Lava Jato”, e “os políticos não estão conduzindo, estão sendo conduzidos pelos acontecimentos”.

A crítica passou pela defesa do parlamentarismo. “Em tese, o parlamentarismo é um sistema mais sofisticado”, opinou. “Mas para isso tem que ter partidos. Se você não tem partidos organizados, com valores suficientes, como você vai fazer isso?”.

Discordâncias com petistas

O entrevistado respondeu pergunta minha sobre uma das áreas mais contestadas dos governos petistas, a política externa, com foco na atuação na América Latina. “Eu tinha esperança que com a presidente Dilma isso melhorasse, mas não”, disse. “Nós capitulamos. Deixamos de exercer a liderança que tínhamos”.

Também mostrou pensar de forma oposta ao PT com relação à “regulamentação da mídia”, a qual classificou como uma “ideia nova, de gente muito antiga”.  “Eu sei qual é o papel da mídia: é cutucar”, explicou. “Nunca, jamais peguei o telefone para falar com algum dono de jornal para reclamar de algum repórter”. FHC também manifestou que não considera o impeachment de Dilma “um golpe”, e que “todos [os partidos] estão imbuídos de que a Constituição é o roteiro”.

Descriminalização das drogas e compras de votos

Outros assuntos frequentes em conversas com Fernando Henrique, sua posição favorável à descriminalização das drogas e a compra de votos que teria resultado na aprovação da reeleição, também estiveram em pauta. “Por sorte, temos um Supremo que é mais realista e está por tomar uma decisão importante, que é não botar na cadeia o usuário de drogas”, expressou. “As cadeias estão superlotadas, e boa parte dos que estão lá, estão por serem usuários de drogas. Então não tem mais sentido” (…). “Quando eu era presidente, eu achava que se podia erradicar a maconha queimando as árvores. E nós mandamos fazer isso. Não adianta nada.”

Já sobre o segundo tema, disse: “se houve compra [de votos], não foi minha, não foi do PSDB, não foi do governo. Foi briga lá entre eles. Não duvido [que tenha acontecido], mas nós condenamos.”

Assista à íntegra do programa aqui.

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