Artigo de 2002: Vitória em São Paulo arremessa Alckmin na cena nacional

Artigo de 2002: Vitória em São Paulo arremessa Alckmin na cena nacional Cartaz da campanha de Alckmin ao governo de São Paulo em 2002 (Foto: You Tube)

E mais: o volátil ministério de Lula, Weffort de malas prontas, Alckmin supera Mercadante, Paulinho magoado com Ciro, o aviso de Loyola, um tucano fascinado por Lula, Garotinho em SP, o fracasso dos ex-governadores – e o tri de Roriz

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A espetacular, avassaladora vitória de Luiz Inácio Lula da Silva deixou em segundo plano, compreensivelmente, muita coisa interessante que aconteceu neste segundo turno. A principal delas talvez seja a importância da reeleição no maior Estado do país, São Paulo, do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Sucessor, como vice, do governador Mário Covas, que morreu em março do ano passado, na segunda metade do segundo mandato, Alckmin tinha a imagem de um político discreto, até tímido, que vivia à sombra do marcante líder que foi Covas, o que lhe valeu o maldoso apelido de “Picolé de Chuchu” pespegado pelo colunista José Simão, da Folha de S. Paulo. Não eram muitos os que acreditavam em suas possibilidades numa campanha em que enfrentaria, à direita, uma cobra criada da política como o ex-governador biônico e ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) e, à esquerda, o excelente parlamentar José Genoino (PT), deputado mais votado do Brasil nas eleições passadas.

Na campanha eleitoral, porém, o que o eleitorado viu foi um surpreendente Alckmin: nos debates pela TV, enfrentou o tiroteio simultâneo de vários candidatos de oposição – alguns deles, nanicos, visivelmente a favor de Maluf – e saiu-se muito bem. Entregando-se a um trepidante ritmo de trabalho desde que assumiu o governo, e com as finanças saneadas pelo duríssimo ajuste fiscal feito por Covas no primeiro mandato, Alckmin, mesmo com a queda de arrecadação provada pela situação do país e pela desaceleração da economia internacional, tinha como trunfo nada menos que três mil obras para inaugurar desde o começo do ano.

Além de pesados investimentos em segurança pública, educação e saúde, seu governo conseguiu fazer girar a máquina, tocando, por exemplo, ao mesmo tempo uma nova linha do metrô da capital e as duas maiores obras viárias em curso na América Latina – um trecho de 32 quilômetros e 1,2 bilhão de reais do Rodoanel que interligará todas as rodovias com acesso à capital e a cinematográfica segunda pista da Rodovia dos Imigrantes, que liga a capital ao litoral e corta a floresta da Serra do Mar em 21 quilômetros, 8 deles de túneis, a um custo de 800 milhões de reais, a cargo da iniciativa privada graças ao regime de concessão implantado pelos tucanos.

No terreno político, o governador conseguiu restaurar no Estado a aliança com o PFL que naufragara no plano federal e cedeu ao professor Cláudio Lembo o posto de vice, o que lhe permitiu abocanhar a maior fatia do horário eleitoral gratuito. Mesmo tendo o PTB em aliança nacional com Ciro Gomes, teve parte considerável do partido marchando com ele na campanha. Com um marketing competente, fixou seu nome como “Geraldo”, mais simples e popular do que o “Alckmin” (pronuncia-se “álckmin”). Enquanto via o deputado José Genoino, do PT, fazer uma bela e empolgante campanha e atropelar Maluf, o arqui-rival dos tucanos, no primeiro turno, o ex-“Picolé de Chuchu” arrebatou o apoio de 560 dos 645 prefeitos do Estado.

No segundo turno, enfrentando um tribuno competentíssimo e experiente como Genoino, com 20 anos de janela na Câmara dos Deputados – que ademais colou sua imagem à de Lula a ponto do presidente eleito anunciar, no horário eleitoral, item por item do plano de governo estadual petista –, e mesmo tendo vulnerabilidades sérias, como, a despeito dos esforços feitos, a situação da segurança pública, se deu bem nos três debates pela TV. De quebra, conseguiu o apoio de 64 dos 94 deputados estaduais eleitos.

Na reta final, com o “efeito Lula” e tudo, Alckmin teve 58,6% dos votos e 12 milhões de votos – mais de 3,5 milhões em cima de um osso duro de roer como Genoino.

Assessores do governador consideram-no pronto para assumir contornos nacionais, e dizem que ele já começou: ao dizer que não vai pedir a Lula a renegociação das dívidas do Estado com a União, diferencia-se da choradeira geral dos governadores e, ao mesmo tempo, começa a construir a imagem de um oposicionista leal, que “pensa no país”. Alckmin com certeza já mira em 2006.

Ministros voláteis

Do deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), presidente do PL, partido aliado ao PT do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, sobre a volatilidade da vida pública no Brasil:

– Acho que o Lula faz muito bem em não divulgar agora o ministério. Ainda falta tanto tempo até a posse que, ao chegar lá, ele já teria demitido uma meia dúzia de ministros.

Malas arrumadas

O ministro da Cultura, Francisco Weffort, já tem destino certo tão logo deixe o governo, no dia 31 de dezembro. Ele aceitou convite da Universidade de Notre Dame, em Indiana, nos Estados Unidos, e vai passar lá todo o ano de 2003.

Curiosamente, a área de pesquisa escolhida por Weffort para trabalhar não será em sua especialidade, ciência política, mas no terreno da política cultural.

Novo recordista de votos

Durou pouco – exatos 21 dias – o recorde abiscoitado pelo deputado Aloizio Mercadante (PT-SP) no primeiro turno das eleições.

Na ocasião, com impressionantes 10,5 milhões de votos na disputa pelo Senado, Mercadante não apenas bateu o recorde histórico de votos no Brasil em eleições similares – os 7,7 milhões que recebeu o então deputado Mário Covas (PSDB-SP) em 1986 – como também passou a ser o político que mais obteve votos em eleições estaduais na história do país, superando os 9,8 milhões de Covas no segundo turno das eleições para governador, em 1998.

O novo recordista em eleições estaduais passa a ser o governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, com seus 12 milhões de votos.

O telefone não toca

Do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, ex-candidato a vice-presidente na chapa do presidenciável Ciro Gomes, da Frente Trabalhista:

– Estou esperando até hoje um telefonema do Ciro. Ele não me ligou nem para dizer obrigado.

Loyola e a dívida

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola se diz preocupado com os acenos que o presidente eleito Lula fez, durante a campanha eleitoral, sobre renegociação da dívida de Estados e municípios com a União:

– O governo não pode abrir mão da receita proveniente dos pagamentos de Estados e municípios por duas razões: pelo impacto que isso teria nas contas públicas e pelo sinal negativo que isso significaria quanto à sua adesão aos princípios da responsabilidade fiscal.

Garotinho em São Paulo

O ex-governador Anthony Garotinho vai fazer uma grande investida sobre o Estado de São Paulo e seus 25,6 milhões de eleitores. Como parte da estratégia para fortalecer sua futura candidatura a presidente em 2006, Garotinho pretende participar pessoalmente da organização ou fortalecimento de seu PSB nas 200 maiores cidades brasileiras, onde o partido deverá concorrer à prefeitura em 2004.

E, dessas 200 cidades, lembra o ex-coordenador nacional da campanha de Garotinho à Presidência, Márcio França, prefeito de São Vicente (SP), 50 ficam em São Paulo.

Vendo de perto

Do presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, deputado Walter Feldman (PSDB), eleito deputado federal com quase 200 mil votos:

– Sou tucano e fiel a meu partido, mas estou achando fascinante assistir de perto à experiência de uma presidência Lula.

Maldição dos ex-

Nunca até hoje, na história das eleições brasileiras, um contingente tão grande de ex-governadores se apresentou para o desafio das urnas – nada menos do que 38 deles se candidatou novamente aos governos estaduais ou concorreu ao Senado.

Fala-se, aqui, de ex-governadores mesmo – políticos que foram governadores há quatro ou mais anos, não valendo para a conta os governadores que estavam no cargo até abril, quando se desincompatibilizaram para concorrer ao Senado, como os eleitos Tasso Jereissati (PSDB-CE), Roseana Sarney (PFL-MA), César Borges (PFL-BA) ou João Capiberibe (PSB-AP).

Concluídas as apurações, o que se viu é que a condição de ex-governador não ajudou em nada, talvez até pelo contrário: dos 38 ex, nada menos do que 25 não conseguiram se eleger.

 Clube dos Três

Com sua apertadíssima vitória sobre Geraldo Magela, do PT, o governador Joaquim Roriz (PMDB-DF) passa a integrar o exclusivo Clube dos Três — políticos que conseguiram três mandatos de governador de Estado pela via das urnas. Vai juntar-se aos seus dois únicos sócios até agora: Miguel Arraes (PSB-PE) e Leonel Brizola (PDT-RJ) – que, como se sabe, tem dois governos no Rio e um no Rio Grande do Sul.

O senador eleito Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que por erro a coluna incluiu, em edição anterior, no Clube dos Três, é na verdade um bi-governador, já que o primeiro de seus três mandatos foi biônico, como corretamente aponta ao signatário o jornalista e escritor Fernando Morais. Deixou por pouco de integrar o Clube o governador Espiridião Amin (PPB-SC), derrotado que foi por pequena margem pelo ex-prefeito de Joinville Luiz Henrique da Silveira (PMDB) no dia 27. Perdeu a oportunidade de ser tetra o atual senador Gilberto Mestrinho (PMDB-AM), derrotado ainda no primeiro turno pelo ex-prefeito de Manaus Eduardo Braga (PPS).

O atento internauta gaúcho Marcelo Soares lembra que o recordista absoluto nessa matéria foi o velho caudilho Antonio Augusto Borges de Medeiros, cinco vezes governador do Rio Grande do Sul. Mas, como ele mesmo nota, a marca não vale, porque as eleições na República Velha eram um festival de fraudes e barbaridades.

Em falta com os internautas

Ficam registrados os agradecimentos aos internautas Carina Matos Martins, Fábio Assis, Flávio Machado Nogueira, Frani S., J. L. Pacheco e Maria Helena de Castro, que escreveram com observações, sugestões e críticas. Eles não tiveram seus e-mails publicados a tempo nem respondidos diretamente por incompetência informática do signatário.

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