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Partidários do PP comemoram a maioria absoluta em frente à sede do partido, em Madri (Foto: Reuters)

As comemorações em dezenas de cidades da Espanha pela vitória do oposicionista e conservador Partido Popular nas eleições gerais deste domingo, 20, tiveram seu peso – mas nem de longe foram proporcionais às dimensões da derrota que o PP, após quase oito anos fora do Palácio de la Moncloa, sede do governo, impôs aos adversários governistas do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) do primeiro-ministro José Luís Rodríguez Zapatero e do candidato Alfredo Pérez Rubalcaba.

De fato, a festa deveria ter sido maior para um partido que elegeu 186  representantes num Congresso de Deputados de 350 integrantes, alcançando bem mais do que a maioria absoluta que deixará o líder do PP, Mariano Rajoy, 56 anos, com mãos livres para governar, bem como folgada maioria absoluta entre 208 senadores eleitos diretamente – outros 54 são escolhidos pelos parlamentos regionais.

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Mariano Rajoy, galego, 56 anos, casado, dois filhos: o novo governante da 12ª economia do mundo (Foto: Ondacero)

A vitória de Rajoy em sua terceira tentativa de chegar ao poder foi a maior da história do partido, mas ficou além do mais rotundo resultado obtido até hoje desde a morte do general Francisco Franco e o fim de sua ditadura de 36 anos, em 1975: o vendaval que levou o socialista Felipe González ao poder em 1982, com 200 dos 350 deputados.

De todo modo, os “populares”, que já governam 15 das 17 comunidades autônomas, 43 das capitais provinciais e três das quatro maiores cidades do país, a começar pela capital, Madri, agora consolidam um enorme poder.

Eleito por exclusão, com o esgotamento dos socialistas

E, no entanto, a comemoração relativamente morna diante do tamanho e do vulto da vitória se justifica: Rajoy, político de carisma zero com enorme dificuldade de entusiasmar mesmo a mais engajada das audiências, viu-se eleito por exclusão, por falta de alternativa, uma vez esgotada qualquer chance de vitória por parte do único outro partido de alcance e dimensões nacionais, os socialistas, responsabilizados pelo afundamento da Espanha na maior crise econômica desde o fim da ditadura.

Zapatero demorou a aceitar que existia uma crise e, quando seu governo se dispôs a compatê-la, cometeu um erro atrás do outro, inclusive aumentando a dívida do Estado com um grande projeto de gastos públicos destinado a gerar atividade econômica e emprego que deu com os burros n’água.

Com mais de 22% de sua mão de obra desempregada (mais de 5 milhões de trabalhadores), com uma economia catatônica, que só deve crescer, se tanto, 0,8% este ano, com uma dívida de 700 bilhões de euros (1,68 trilhão de reais) para um Produto Interno Bruto de 1,4 trilhão de euros (3,4 trilhões de reais), com um governo compelido a pagar juros já superiores a 7% ao ano para colocar títulos no mercado – um escândalo para um país europeu, sobretudo com a economia estagnada –, o inferno desabou sobre Zapatero, anulando aos olhos do eleitorado a bonança que a Espanha viveu na maior parte de seu primeiro mandato, entre 2004 e 2007, e as conquistas de mais direitos civis e igualdades asseguradas por sua gestão.

Para substituí-lo, os espanhóis descartaram o experiente, calejado químico de profissão, ex-atleta com boas marcas nos 100 metros rasos e várias vezes ministro Rubalcaba, a quem se deve boa parte da façanha que foi, como ministro do Interior, liquidar do ponto de vista policial os terroristas bascos da ETA, que finalmente anunciaram, há exatamente um mês, o fim de suas “ações armadas”.

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Rajoy e a mulher, Elvira, a “Viri”: solteiro até os 41 anos e, aos 56, com idade para ser avô dos dois filhos

Morno, mas com o trunfo de ser previsível

Preferiram o morno, mas previsível Rajoy, “registrador de propriedades” de profissão (algo peculiar à Espanha, um funcionário público formado em Direito que deve zelar pela legalidade e correção de documentos ligados à propriedade), um ex-solteirão empedernido nascido em Santiago de Compostela, na Galícia, que se casou somente aos 41 anos, com a economista Elvira Fernández Balboa, “Viri”, quando já era ministro do governo José Maria Aznar (1996-2000) e, já em idade de ser avô, tem como o mais velho dos dois filhos um garoto de 12 anos.

Mas está nesta palavra mágica, “previsível”, o grande trunfo do novo governante da 12ª maior economia do mundo: o líder do PP merece a firme confiança dos principais cabeças da União Europeia, em especial a chanceler alemã, Angela Merkel, do Banco Central Europeu e do FMI, a chamada troika que está dando as cartas para salvar o destino do euro, a moeda comum de 17 dos 27 países da UE. Confiam nele por sua anunciada e reiterada disposição de cumprir, custe o que custar, os compromissos assumidos pela Espanha para evitar a quebra.

Compromisso “inquebrantável” com a Europa

Eleito com base num programa gigantesco de 214 páginas, do qual ele mostrou não conhecer certos detalhes durante o único, insuficiente debate cara a cara pela TV mantido com Rubalcaba, Rajoy conseguiu o milagre de atravessar meses de pré-campanha e 15 dias de campanha eleitoral oficial não se definindo sobre quase nenhum tema “quente”, exceto nessa questão.

“Tenho o compromisso firme e inquebrantável de cumprir nossos compromissos de permanência na zona do euro”, disse, rebarbativo, afiançando que sua gestão será de “absoluta austeridade”.

O principal esteio do plano de estabilidade apresentado por Zapatero em Bruxelas, sede da União Europeia, em maio do ano passado, consistia em atacar o déficit público, então em pavorosos 11% do PIB. Baixando salário dos funcionários públicos, congelando aposentadorias, extinguindo benefícios como o “cheque-bebê” de 2,5 mil euros (cerca de 6 mil reais) por cada família que adquirisse um novo membro e cortando gastos e investimentos, o governo fez descer o déficit para 9,2% e deveria empurrá-lo para 6% este ano (mas deve ultrapassar a meta).

Rajoy promete cumprir o objetivo de espremê-lo a 4,4% em 2012.

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Zapatero com Rajoy no Palácio de la Moncloa: os dois grandes partidos concordaram em colocar limite ao déficit na Constituição (Foto: EFE)

Para alívio da União Europeia, anunciou também, em longa entrevista (5 páginas) ao jornal El País na sexta-feira, 17, que sua primeira medida, se vencesse, seria fazer aprovar, nas Cortes, o Parlamento espanhol, a Lei de Estabilidade, que deverá fixar um limite máximo anual (talvez de 0,4%) para o déficit público.

A lei está prevista na reforma da Constituição pactada em setembro pelos líderes dos dois grandes partidos, o PSOE e o PP, e aprovada no Congresso sob protestos dos partidos minoritários e nacionalistas, que se sentiram excluídos das discussões e apelidaram a mudança de “reforma express”, como se se tratasse de fast food, apesar de os dois grandes partidos somarem 90% das Cortes e 80% dos votos dos espanhóis.

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Rajoy com a chanceler Merkel: promessa cumprida de incluir na Constituição a limitação do déficit (Foto VEJA)

Trata-se de um gesto de especial agrado para Merkel, que adotou medida semelhante, e ainda mais radical, na Alemanha – o déficit zero obrigatório por lei. Rajoy prometeu à chanceler, em visita feita a Berlim, em abril, que se empenharia por algo semelhante se chegasse à Moncloa. Premido pela crise da dívida e pelas incertezas quanto à solvência da Espanha, porém, o próprio Zapatero acabou adotando a ideia, num de seus raros “pactos de Estado” com o arquirrival – outro foi a forma de combater sem tréguas, e sem qualquer negociação política, o terrorismo da ETA.

As demais medidas a serem adotadas pelo reticente, escorregadio Rajoy, que precisou driblar questões complicadas para limar a imagem de direitista raivoso e até o final das apurações não abrira a boca para dizer o nome de nenhum futuro ministro, precisaram ser extraídas a fórceps, por meio de minucioso acompanhamento de sua campanha, seus discursos e entrevistas. Em alguns casos, são promessas de medidas que Rajoy NÃO vai tomar.

Promessas e medidas

As principais promessas são, além de seguir a cartilha da UE e de aprovar a Lei de Estabilidade, as seguintes, muitas delas vagas ou ambíguas:

* Atividade econômica e empregos: aquecer a economia e criar empregos é prioridade absoluta, repetida em cada discurso, em cada entrevista; em nenhuma ocasião, porém, Rajoy detalhoou como. “Temos que ter uma política econômica como Deus manda”, repetiu mais de uma vez – seja o que isso for.

* É “urgente” fazer a reforma trabalhista (a legislação espanhola assusta empresários que querem contratar, e os contratos temporários ganham cada vez mais espaço no mercado de trabalho) – como, ele não esclareceu.

* É igualmente “urgente” a reestruturação do sistema financeiro – tarefa iniciada por Zapatero e pelo Banco da Espanha, o banco central, começando pela aglutinação um tanto compulsória do absurdo número de 46 caixas econômicas existentes até há dois anos, a maioria vinculadas a governos locais e geridas por critérios pouco técnicos. Não se sabe por onde Rajoy prosseguirá.

* Seguro –desemprego (que custa 30 bilhões de euros anuais): é intocável e não será afetado pela austeridade

* Aposentadorias: com crise e tudo, será mantido seu poder aquisitivo (o governo desembolsa, hoje, 120 bilhões de euros anuais em pensões e aposentadorias)

Excetuados esses dois itens e o pagamento religioso da dívida pública (só de juros previstos em 2012, 27 bilhões de euros), “tudo o mais estará sobre a mesa” para possíveis cortes, inclusive saúde e educação, que são competências das comunidades autônomas (equivalentes aos Estados americanos) mas recebem repasses do governo central. Mais pontos:

* Impostos: não haverá aumento, nem criação de novos

* Fraude fiscal: será combatida “severamente”

* Economia informal: será combatida “severamente”

*Fraudes no seguro-desemprego: serão combatidas ”rigorosamente”

* Aborto: Rajoy “não gosta” que a atual lei permita a garotas de 16 anos praticá-lo sem que seja necessária a autorização dos pais; não chegou a esclarecer se proporá mudanças na legislação deixada por Zapatero

* Direito à vida: ao abordar a lei do aborto, repetiu várias vezes: “Creio que devemos buscar alguma fórmula que afirme a proteção do direito à vida” – mas nunca ninguém conseguiu arrancar uma palavra a mais do novo primeiro-ministro sobre o que isso significa.

* Terrorismo basco: “será combatido com lei e Estado de Direito, a ETA não será premiada por deixar de matar”

* Política externa: prioridade é integração cada vez maior à UE, mas é necessário fortalecer os laços com a América Latina – com a qual a Espanha tem comércio menor do que com Portugal – e aproximar-se mais de Brasil, China, Rússia e Índia, “gigantes” para os quais o país envia apenas 7% de suas exportações. Em relação a Cuba, disse a El País: “Quero democracia, quero liberdade, quero direitos humanos – bem, eu não, todo mundo quer”.

Terminada a campanha, obtida a tão sonhada vitória, Rajoy, agora, precisará ser menos vago sobre uma série de pontos, especialmente no terreno econômico.

Não por acaso, o entorno do candidato vencedor anuncia que, além do discurso de vitória em que reafirmou compromissos com a estabilidade, com a Europa, com o combate à estagnação e ao desemprego, Rajoy deverá fazer várias declarações “taxativas” ao longo das próximas semanas, antes de assumir o governo em data ainda não fixada, mas que pode ser no próximo dia 23, antevéspera de Natal.

De todo modo, num momento em que outros países problemáticos da Europa, como a Itália e a Grécia, acabam de empossar governos formados por técnicos com apoio político reticente, Rajoy desfruta do conforto de ter um mandato límpido e claro, saído das urnas, para conduzir seu país na trilha de sacrifícios que se anuncia para os próximos anos.

O PSOE sofre um cataclisma

Quanto ao PSOE, grande impulsionador da democracia e da modernização da Espanha, cabe-lhe catar os cacos da derrota e dela extrair lições.

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Carme Chacón, com Rubalcaba, num dos últimos comícios dos socialistas: ela não escapou à maré

Há um movimento para renovar a liderança, para a qual Rubalcaba seria o candidato natural, apesar da derrota, mas a que aspira também a jovem ministra da Defesa, a bem apanhada Carme Chacón, 40 anos, principal figura socialista na Catalunha, a região mais desenvolvida da Espanha.

O problema é que o massacre sofrido pelos socialistas em todo o país abateu também o Partido Socialista da Catalunha (PSC), partido irmão do PSOE, superado pela primeira vez pelos nacionalistas conservadores que governam a região, a coligação Convergencia i Unió. Então, Chacón, embora ela própria haja sido eleita deputada, não dispõe de um trunfo para se impor caso o PSC sobrevivesse à maré que castigou os socialistas.

Seja quem for o novo líder dos socialistas, terá pela frente a mais difícil tarefa do período democrático na Espanha: nunca, como hoje, o PSOE elegeu tão poucos deputados — desabando dos 169 obtidos nas eleições de 2008 para apenas 110, um cataclisma político sobre os quais seus dirigentes precisam se debruçar desde já.

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Diego Ramires em 31 de janeiro de 2012

Caro respondente, agradeço pela publicação do comentário acima - faz-me pensar que há alguém sério nessa redação. Publicar divergências faz parte da atividade saudável dessa tal democracia e, caso o Sr. não saiba, há meses venho tentando publicar comentários (mais sérios, menos cínicos) noutras colunas deste site. Meus parabéns pelas publicações - e, se possível, avise o Sr. Reinaldo de que aguardo lá também ter garantido esse tal preceito de democracia que ele tanto apregoa. Att.,

Diego Ramires em 31 de janeiro de 2012

Sr. Censor, mas que surpresa fortuita! É a primeira vez que vejo uma postagem de crítica neste portal da Veja (vide Claudio)! Será que o Sr. estava cochilando, e não leu direito o comentário? Ou será que o Sr. Censor desta seção não é o mesmo que o das outras áreas do site? Abraços contagiosos, O Censurado Sr. caluniador, Vossa Senhoria visivelmente não é leitor do site. Já recebi perto de 70 mil comentários, boa parte deles de teor críticos e publicados. Invoco aqui o testemunho de milhares de leitores do blog para fazer frente a sua baboseira.

Claudio em 18 de janeiro de 2012

Ricardo, uma palavra de solidariedade para você, que tenta manter uma coluna séria numa "gossip magazine", segundo a The Week: "BIG BROTHER IN BRAZIL ROCKED BY ALLEGATION OF DRUNKEN RAPE - (...) Now, according to the website of Brazilian gossip magazine Veja, police in Rio are investigating the seven minutes of footage, even though there has been no official allegation and the participants of the show are unaware of the furore." Se quer criticar VEJA, dirija-se ao diretor de Redação: veja@abril.com.br

marina silva em 18 de janeiro de 2012

Na verdade é que a gente aqui votou nele baseado na teoria do Menos Ruim,até mesmo aqui na Galiza aonde vivo e ele é oriundo seus proprios paisanos nao levam muita fé,votaram nele por medo da coisa piorar ainda mais.Até agora nao fez ou declarou nada de surpreendente ou significativo,vamos ver o caminhar das coisas...A proposito,ontem morreu Manuel Fraga o fundador do PP,aqui em Galiza comoçao geral!

Corinthians em 22 de novembro de 2011

Setti, Com relação à sua resposta, acho que está inteiramente certa. Não podemos esquecer também que agora eleito, o PP deve sim resolver o problema, doa a quem doer (mesmo aos "socialistas" e "esquerdistas" que esquecem que não se deve gastar mais do que se tem e que suas contas devem ser pagas). Esta situação me lembra o momento da eleição de Obama - que claro foi muito mais "aleatório" e vazio em seus discursos, com o "Yes we can", dizendo que ia resolver a crise, mas depois de 3 anos e meio vimos que ele não teve a competência prometida. Espero que com o PP na Espanha seja diferente.

Valeria em 22 de novembro de 2011

Como disse o articulista Javier Marías no domingo: "HOJE VOTAMOS AQUI, E COMO DISSE ANTERIORMENTE., SE TRATA DE ELEGER POR QUEM NOS DÁ 100 PONTAPÉS OU POR QUEM NOS DÁ 99" A situacao econômica nao vai sofrer grandes mudanças com o novo governo. As medidas do PP, como sempre será privatizar e recortar. Terá que obedecer a Alemanha e ao FMI. Abraços

Espanha em 21 de novembro de 2011

Creio que voce é o único colunisa da Veja que fala da Europa, principalmente da Espanha, com tanta precisão, mas eu acho que o seu post foi um pouco tendencioso para o PSOE, vi duras críticas ao programa do PP, mas não vi críticas ao PSOE, partido responsável pela crise econômica na Espanha Em todo caso eu acho isto lamentável, pois admiro muito a sua pessoa e as suas sábias palavras, sou cidadão Espanhol e fiz questão de votar no consulado de SP, votei no PP para todos os cargos possíveis Enfim, você tem todo o direito de gostar mais do PSOE, entretanto tem que entender que o líder Mariano Rajoy pode não ter carisma, mas tem competência. Abraços Obrigado pelo elogio, caro amigo. Mas releia o post e veja o que eu disse dos erros de Zapatero, dos desastres cometidos pelos socialistas. Está tudo lá. Dizer que Rajoy não tem carisma não é ofender. Quanto à competência, agora, depois de passar 8 anos criticando o governo socialista e culpando-o por tudo de mal que ocorre no país, é hora mesmo de demonstrar que tem. Abração

Marco em 21 de novembro de 2011

Amigo Setti: Parabéns pela bela cobertura, é aquela máxima na vida politica: " Situação hoje, oposição amanhã e vice versa..." Abs.

Julian Matos em 21 de novembro de 2011

Caro Ricardo: Que pena que o post não é em espanhol, utilizaria para resumir aos meus amigos da Espanha o que foram as eleições. É muito difícil encontrar na cobertura internacional no Brasil algo que fuja de um didatismo chatíssimo ou de simplificações grosseiras que permitam chegar a conclusões estapafúrdias sob a ótica interna. Gostaria, porém, de comentar com você e com os leitores o perigo que Rajoy assumiu ao não concretizar suas propostas. Observe que alguns aspectos do pouco que você mencionou só ganharam ênfase na ultima semana de campanha. Rajoy tem uma maioria absoluta histórica e seu partido acumula mais poder que qualquer outro desde a redemocratização (inclusive mais que o PSOE de Felipe González), mas não está claro o que fará com tanto poder. Nisso existe um grave perigo. Espanha necessita de reformas profundas e elas serão dolorosas. Para enfrentar os interesses dos principais beneficiários do status quo (para citar alguns, sindicatos, funcionários e bancos), a maioria absoluta de Rajoy ajuda, mas pode não ser suficiente. Poderá faltar-lhe legitimidade ao não dizer exatamente o que precisa ser feito. Um exemplo é a reforma trabalhista que, de tão necessária, é um escândalo que não tenha sido feita ainda. Pouca coisa pode explicar um desemprego de 22% na Espanha (pior que países em intervenção como Grécia e Portugal) que uma regulação anacrônica. Agora, propor uma verdadeira reforma e enfrentar os sindicatos (que defendem os interesses dos que já estão empregados e não dos cinco milhões de desempregados) exigirá uma firmeza que deve ir além dos votos nas Cortes Espanholas. Aznar, anterior ministro conservador, tentou uma tímida reforma laboral e enfrentou uma greve geral. O governo socialista, agora derrotado, conseguiu retroceder os pequenos avanços que havia conseguido. Existe precedente em maiorias absolutas que perderam legitimidade rapidamente. O expulsado primeiro ministro grego Papandreu, há dois anos foi eleito com maioria absoluta. Deixo claro também que o eleitorado espanhol conservador foi cúmplice deste jogo “me engane que eu gosto”. A ambigüidade de Rajoy permitiu não mobilizar o eleitorado de esquerda. Na Espanha, com o voto não obrigatório e as fronteiras ideológicas mais definidas, uma eleição não se ganha, se perde. O partido conservador ganhou aproximadamente 400.000 votos em relação às eleições anteriores, mas o partido socialista perdeu 4 milhões de votos! Propostas claras poderiam alentar um medo à “direita” que mobilizaria parte desse eleitorado de esquerdas que ficou em casa ou voltou em outras forças políticas minoritárias. Esse risco valeria a pena ter sido assumido, como mínimo, para melhor saúde democrática do país. Enfim, expresso meu desejo de sorte ao novo presidente de gobierno espanhol (que, por certo, não sei o porquê no Brasil traduzimos como primeiro-ministro). Um abraço, Julian Em linhas gerais concordo com você e agradeço seu elogio, caro Julian. Observo, apenas, que no Congresso Rajoy não alcançou a maioria histórica de Felipe González em 1982, ainda imbatível, com 200 deputados em 350. Talvez ele tenha mais poder no sentido de que o PP governa em maioria nos demais níveis de governo, e isso ajuda, por exemplo, na hora de "domar" a gastança das comunidades autônomas. Os desafios são muitos, como você mesmo observa. São meio óbvios, mas muitos, e ele não esclareceu nada sobre como vai enfrentá-los. A eliminação de um dos 4 níveis de poder no país, um absurdo e uma perda de tempo, recursos e de competitividade -- as "diputaciones", que têm alguns poderes administrativos nas províncias, tendo acima as comunidades autônomas e o governo central e, abaixo, as prefeituras --, por exemplo, é algo que se impõe, mas duvido que será feito, por afetar milhares de cargos políticos. Abração

Corinthians em 21 de novembro de 2011

Acho que neste post não vamos ter os comentários falando que as políticas neo-liberais (ou conservadoras, dependendo do esquerdista) afundaram a Europa e que bom mesmo hoje em dia é ser BRICS não é... Para variar mais uma vez os socialistas gastaram demais e agora o eleitorado elege um conservador para colocar ordem na casa - é sabido que o governo agora deverá fazer reformas e não terá números bons, principalmente nos primeiros anos. Se fosse no Brasil, isso seria explorado intensamente politicamente...

Angelo Losguardi em 21 de novembro de 2011

Caramba, Setti... Eu vou me casar com quase 40 anos. Será que as pessoas me olham assim como você faz com o Rajoy, como se fosse uma aberração? Taí, sou "solteirão" e não sabia rsrs Parabéns pelo seu próxiimo casamento, amigo Angelo. De forma alguma acho uma aberração, Deus me livre. O que pretendi dizer, e deveria ter explicado mais, é que, pelos padrões gerais, sobretudo da Espanha, ele se casou tarde. Meu irmão número 3, com a idade do Rajoy, já tinha 5 netos! Nada tenho contra casamentos tardios, de jeito nenhum. Tentei, em rápidas pinceladas, dar uma ideia de como é o Rajoy. Vá em frente e seja feliz! Abração

Kitty em 21 de novembro de 2011

Boa Noite caro Amigo Ricardo, Além de excelente escritor, colunista de mão cheia,de uma finesse inigualável,agora é também um correspondente no estrangeiro cobrindo as eleições da Espanha.No artigo aqui postado, diga-se de passo,ótimo!!Você em forma clara e concisa nos descreve a realidade deste momento quase histórico, pela importância que representam as eleições na Espanha, onde os socialistas perderam feio.Evidentemente o novo governo terá grandes desafios pela frente, neste momento muito crítico que a zona do euro estão enfrentando, incluindo a minha Itália. Caro Ricardo fica difícil para qualquer governo cortar benefícios que em época de bonança eram prodigados em forma irresponsável baseados no gastar por conta, mucha siesta e trabalhar menos do que se deveria. É por causa do crédito fácil e dos gastos exagerados que o Primeiro Mundo esta enfrentando uma das maiores crises financeiras de sua história!!! Como sempre trataremos de confiar que seguramente encontrarão uma exitosa saída a este insólito impasse pelo bem de todos que fazem a Comunidade Europeia, especialmente a nossa Madre Patria, Espanha e, claro, Itália!!! Aqui vai o meu abraço.-Kitty Muito obrigado por suas palavras carinhosas, como tantas outras vezes, prezada Kitty. Espero que você também tenha tido a oportunidade de ler post algo semelhante que fiz sobre a situação da Itália com a mudança de governo ali ocorrida. Se quiser ler, está no link http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/vasto-mundo/o-novo-primeiro-ministro-da-italia-e-os-muitos-obstaculos-a-vencer/ Um grande abraço

Democracia = Alternância De Poder em 21 de novembro de 2011

Os espanhóis demonstraram que têm juízo. Que o exemplo deles acorde e alavanque a vontade dos brasileiros em fazer o mesmo: Alternância De Poder e Manutenção da Democracia. O PT entrou, gostou e se deixarmos... acabam de vez com a essa "Oposição pra lá de maneira"!!!

Luiz Pereira em 20 de novembro de 2011

Setti, boa noite, No seu post, sabe o que mais me chamou a atenção? O cumprimento entre Zapatero e Rajoy. Ninguém gosta de perder eleição. Atua-se para ganhar, e pela maior margem possível. Porém, isso é decisão do eleitorado. E certamente ambos sabem que ter opositores é fundamental para o correto funcionamento da democracia. Pois bem, aqui, mesmo com sua doença, Lula deseja estar em forma ano que vem para " esmagar a oposição". E se possível, após esse feito, tentará "esmagar" a imprensa e seja lá quem vier a se opor a ele. Abs

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