Zózimo: Rastros de Gore Vidal

Nos seis dias que passou em São Paulo para fazer palestras, dar entrevistas e conhecer pessoas, o escritor norte-americano Gore Vidal lançou farpas, fez desatar gargalhadas e deixou ricas lembranças:

Grande frasista, ele incorporou novas criações a seu repertório. Por exemplo:

— Sempre digo a meus amigos conservadores para não se preocuparem com os avanços tecnológicos dos russos – pelo menos até que eles consigam fazer uma tampa de garrafa de vodca que funcione, tudo estará bem.

Dandy impecável, Vidal arranhou um pouco essa imagem com alguns escorregões. Exemplos: apareceu mais de uma vez em público com sapatos empoeirados, tomou um drinque na piscina do hotel Cá d’Oro com a barba por fazer e usou o mesmo par de abotoaduras em pelo menos cinco ocasiões diferentes.

Convidado pelo presidente José Sarney para um almoço hoje no Palácio da Alvorada, em Brasília, Vidal esmerou-se em conseguir uma tradução em inglês do livro Marimbondos de Fogo, uma das obras de ficção do presidente, para chegar à mesa do interlocutor municiado.

Não perdeu a ocasião, porém, de brincar, durante reunião privada:

— Se ele vier me falar de literatura, vou dar-lhe alguns conselhos de economia.

Tendo compartilhado de um jantar ao lado de Bruna Lombardi, disparou depois:

— Ela é inteligente demais para ser atriz.

Na quarta-feira à noite, Gore Vidal teve de vencer por alguns longos segundos sua fobia por elevadores e enfrentar os 23 andares que levam ao apartamento de cobertura do empresário Aparício Basilio da Silva, anfitrião de um jantar em homenagem ao escritor que reuniu 50 convidados.

Vidal chegou lívido ao topo do prédio, na região dos Jardins.

Só começou a recuperar as cores depois de uma boa dose de uísque.

 

 

(Nota publicada no Jornal do Brasil.)

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