Coluna do Setti

Não há uma só aparição do ditador fanfarrão da Venezuela, Nicolás Maduro, em que não se veja rodeado de imagens da figura do histórico herói Simón Bolívar, o Libertador — grande líder militar e político, que esteve à frente da luta pela independência do domínio espanhol de seis países latino-americanos, inclusive sua Venezuela natal.

Bolívar, como se sabe, foi apropriado pelo chavismo — de Hugo Chávez, o antecessor de Maduro, morto em 2013 após 14 anos no poder — a ponto de batizar com seu nome o infeliz regime que destrói a Venezuela e se espalhou por outros países, o “bolivarianismo”.

A loucura do chavismo em utilizar a figura do Libertador, como é conhecido Bolívar, chegou a seu auge delirante em julho de 2010. Com o suposto objetivo de determinar se o grande herói, morto em 1830, teria sido assassinado (não foi), ordenou a reabertura da tumba de Bolívar, exibindo depois longamente seus restos mortais por rede nacional de TV, numa manobra macabra que espantou o mundo civilizado e serviu para desviar a atenção do público interno de escândalos de que era acusado e do péssimo estado da economia.

Tudo isso para dizer que, tendo lido e relido um extraordinário relato de um soldado americano comum sobre sua experiência como marine no Pacífico, durante a II Guerra Mundial, relembrei uma figura impressionante, o militar de mais alta patente dos Estados Unidos a morrer em combate em todo o conflito entre os 16 milhões que lutaram na Europa e no Pacífico de 1941 a 1945 — o tenente-general do Exército Simón Bolívar Buckner, Jr.

Sim, era este seu nome: Simón Bolívar. Filho de um general confederado durante a Guerra Civil americana (1860-1865) e ex-combatente na I Guerra Mundial, a ele coube uma tarefa descomunal: à frente de várias divisões do Exército e dos Fuzileiros Navais combinadas, reunidas no que se chamou X Exército dos EUA, com uma força total de 541.866 soldados — sim, mais de meio milhão –, com o apoio de mais de 100 navios de guerra e centenas de aviões de combate, o general Simón Bolívar Buckner precisava tomar, em abril de 1945, a superdefendida ilha japonesa de Okinawa, que posteriormente deveria servir como base para a invasão do coração do Japão pelo mitológico general Douglas MacArthur.

O general Simon Bolívar (esq.) em uniforme de combate, em Okinawa, no Japão, onde se travou uma das mais terríveis batalhas da II Guerra Mundial (Foto: U. S. Army)

Naquele tempo, apesar do alto desenvolvimento já alcançado pela indústria bélica dos principais envolvidos no conflito, não havia guerras com drones ou em que se podia combater apertando botão em computador: para dominar Okinawa, o Alto Comando Aliado calculava que o percentual de baixas poderia alcançar inacreditáveis 80% a 85%.

Não chegou a tanto. De todo modo, travou-se ali, durante 82 dias — de 1º de abril a 21 de junho de 1945 — a mais cruenta de todas as batalhas da Guerra do Pacífico. Mais até do que a conquista de Iwo Jima, celebrada em vários filmes e em monumentos baseados na foto (posada) de  marines fincando a bandeira americana no alto de uma colina.

Os Estados Unidos tiveram 49 mil baixas — 12.500 soldados mortos –, e os japoneses, 117 mil baixas, dos quais 110 mil mortos. Por todos os critérios que se queira usar, números espantosos, estarrecedores.

O general Simón Bolívar Buckner esteve sempre na linha de frente, e morreu apenas três dias antes da vitória de suas tropas, em consequência de um disparo da artilharia japonesa.

Foi promovido post-mortem ao posto máximo do Exército dos EUA — general de quatro estrelas.

A terrível decisão de lançar a bomba atômica

A ferocidade da resistência japonesa em Okinawa, combinada à observada nos combates anteriormente travados em dezenas de ilhas do Pacífico, em várias das quais os Estados Unidos perderam metade dos combatentes, e a férrea disciplina militar dos japoneses, cujo código de honra preferia a morte à rendição, levou à decisão de lançar as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.

Durante meses, o presidente Harry S. Truman, seu gabinete de guerra e seus generais pesaram essa terrível decisão, tomada porque, argumentou-se, o Japão não se renderia de outra forma e a ocupação de seu território custaria centenas de milhares de vidas americanas. Optaram por ceifar as dos inimigos, ainda que quase todas civis.

Sobre as dúvidas a respeito de lançar ou não uma bomba atômica no Japão e o longo processo decisório necessário para se chegar ao bombardeio de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto), recomendo o detalhado capítulo a respeito contido no livro — indispensável para quem quer se informar sobre a II Guerra Mundial — As Grandes Decisões Estratégicas (Biblioteca do Exército, Diretoria de História Militar, 2ª edição, 2004), que se pode encomendar pela internet a grandes livrarias ou a sebos.

O soldado Eugene B. Sledge em sua tenda de campanha, após a batalha de Okinawa (Foto: Álbum de família)

O tímido estudante que revelou como poucos crueza e barbárie da guerra

Ah, e antes que me esqueça: o extraordinário livro que li infelizmente não foi traduzido para o português, mas existe em inglês (With the Old Breed: from Peleliu to Okinawa, de Eugene B. Sledge, Ebury Press, 1ª edição, 2011, inicialmente publicado em 1984) e em espanhol (Diário de un Marine, Booket, Espanha, 1ª edição, 2010), ambas disponíveis em grandes livrarias brasileiras. Pode-se também comprar pela internet a versão em e-book por poucos dólares.

Sledge, rapaz magricela, tímido e de óculos, filho de um médico de Mobile, Alabama, resolveu mudar de vida aos 19 anos alistando-se nos marines, os Fuzileiros Navais. (Convém recordar que os marines não integram a Marinha americana, mas são uma das cinco Forças Armadas dos EUA — que incluem ainda o Exército, a Força Aérea e a Guarda Costeira.) Recebeu o tradicional treinamento de uma dureza quase indescritível e, na guerra, viu literalmente o inferno de perto.

Dos muitos livros que li sobre guerras em geral, nenhum como este trouxe a crueza do que elas significam.

Eugene B. Sledge aos 73 anos de idade, em 1996 (Foto: Military.com)

Livro que chega perto de uma obra-prima

A narrativa de Sledge transmite dolorosamente uma guerra que os filmes não mostram: o desconforto — calor insuportável, frio terrível, umidade devastante, alimentação deficiente, a imundície –, o medo onipresente, o pavoroso cheiro de cadáveres em decomposição tornando-se parte da rotina, a visão permanente da barbárie desumanizando e brutalizando os soldados — os japoneses em geral atiravam no inimigo para ferir, de forma a atrair os paramédicos e, aí sim, matavam os paramédicos e enfermeiros; entre os americanos, garotos bem criados do Meio Oeste transformavam-se em monstros que extraíam com facas ou alicates dentes de ouro de inimigos em alguns casos ainda agonizando; os dois lados virtualmente deixaram de lado a prática de fazer prisioneiros.

Isso tudo, e muito mais, como o outro lado do horror — a camaradagem, a amizade, o desprendimento, o heroísmo e a coragem, as saudades –, além da descrição atraente e perfeita dos combates e das reflexões do autor sobre o que viu e viveu  tornam esse livro algo próximo a uma obra-prima do gênero.

Steven Spielberg e Tom Hanks se basearam grandemente em suas memórias de guerra para produzir a excelente série The Pacific (2010), em 10 episódios — uma espécie de complemento à série anterior sobre a II Guerra, que versou sobre o conflito na Europa, Band of Brothers (2001). O grande diretor de documentários Ken Burns também lançou mão da narrativa de Sledge para trechos de sua monumental série The War (2007), em sete capítulos, com mais de duas horas de duração.

Sledge serviu nos marines de 1941 até depois da guerra, em 1946, e precisou de 35 anos de decantação das anotações que fazia, às escondidas (eram proibidas por razões de segurança), no meio de um exemplar da Bíblia, até que, já maduro, aos 58 anos de idade e bem estabelecido na carreira de biólogo e professor universitário, finalmente publicou as memórias.

Morreu em 2001, aos 78 anos.