No começinho de maio de 2014 publiquei um post em que ironizei e comentei duramente o então deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que, segundo o Radar On-line que Lauro Jardim mantinha na revista VEJA, havia decidido “fazer mais uma graça” e anunciara “oficialmente à cúpula do PP estar disponível para se candidatar a presidente da República”.
Meus comentários provocaram um aluvião de acessos e mais de 12 mil comentários de leitores, na grande maioria com críticas e ofensas a mim — um número espantoso para um blog que recebia várias centenas de comentários para as notas notas de mais destaque, mas raramente via passar a marca de mil manifestações. Infelizmente o post, como muitos outros, se perdeu quando foi feita tecnicamente a migração do material que eu mantinha em blog no site de VEJA para este site pessoal. Era um total de 10 mil posts, dos quais fiz uma seleção e descartei milhares por serem datados ou perderam importância com o tempo. Os comentários a este post também desapareceram, junto com outros 450 mil. Restaram 47 mil que estão neste site.
Não foi possível apurar o motivo do problema técnico – mas o fato, na ocasião, me chamou a atenção fortemente para um fenômeno que ocorria nas redes sociais em torno do apagado, medíocre deputado Bolsonaro, o que permitiu que ele fosse recebido por multidões em aeroportos Brasil afora sob a saudação de “mito!”, “mito!”, “mito”, sem que a grande imprensa registrasse.
O post que perdi estou conseguindo reproduzir com base nas anotações que fiz na ocasião — tenho um imenso arquivo de anotações feitas ao longo da carreira.
E dizia o texto que mesmo vendo esse grande movimento subterrâneo pró-Bolsonaro, achei e continuo achando que se trata mesmo apenas de uma “graça”, uma piada, uma brincadeira, a suposta candidatura do deputado a presidente.
Digo isto não apenas porque abomino a maioria das ideias, as posturas, a atitude e o jeito de fazer política do deputado Bolsonaro.
Em primeiro lugar, é uma piada porque ele não tem equilíbrio, nem postura nem preparo para ser presidente (e não me venham com o argumento de que, se Lula foi presidente, vale tudo, de que, se Collor foi presidente, tudo pode, de que, se Dilma, de quem se dizia “preparadíssima”, chegou lá, tudo vale — não, não vale, porque quero o MELHOR para meu país. Nada de nivelar a exigência por baixo! Já sabemos o resultado disso).
Em segundo lugar, porque o PP é um partido de raposas, e não vai embarcar numa fria, em uma candidatura com chance zero de vingar. Boa parte do PP pretende continuar mamando no governo e, apesar de se tratar de um partido supostamente conservador, quer continuar tecnicamente apoiando o governo lulopetista da presidente Dilma.
Outros setores querem marchar com o tucano Aécio Neves, candidato as presidente, que emplacou um governador em exercício do PP em Minas, tem boas relações com o comando do partido, apoia a senadora pepista Ana Amélia na corrida para o governo do Rio Grande do Sul e é primo e muito próximo de um dos cardeais do PP, o senador Francisco Dornelles (RJ).
Em terceiro lugar, as ideias e atitudes do deputado estão longe daquilo que os brasileiros MERECEM ter no próximo ocupante do Palácio do Planalto. Ele não tem estofo algum para o cargo.
Truculento e gritalhão, Bolsonaro já se envolveu em inúmeros entreveros repletos de insultos e próximos a briga de socos no Congresso. Ficou lamentavelmente famoso o episódio em que, durante discussão com a deputada Maria do Rosário (PT-RS), ele disse a certa altura:
— Jamais estupraria você por que você não merece.
A discussão terminou com Bolsonaro chamando a deputada de “vagabunda”. Lembre o episódio neste vídeo:
Bolsonaro repetiu essa barbaridade também no plenário da Câmara.
Ele zomba de quem defende direitos humanos, não hesitou em acarinhar publicamente, mais de uma vez, a ideia de golpes militares, defendeu o uso da tortura em interrogatórios — atropelando um dos valores mais sagrados da civilização ocidental a que ele supostamente pertence — e até chegou ao extremo grotesco de defender o “fuzilamento” de um presidente da República em exercício, no caso o presidente Fernando Henrique Cardoso. É homofóbico de carteirinha e orgulha-se deste e de outros preconceitos.
É um saudosista da ditadura e faz grossa demagogia dizendo-se, por ser ex-capitão do Exército, representante das Forças Armadas no Congresso.
NÃO, senhores: ele é delegado de 120.646 eleitores do Estado do Rio de Janeiro que o elegeram. Embora entre eles certamente se incluam militares da ativa e da reserva e pessoas de suas famílias, isso fica a anos-luz de se arrogar representante “das Forças Armadas”.
Suposto crítico contumaz da “velha política”, transformou-se por ironia em um ferrenho adepto do que condena e colocou a família para viver às custas da política: ele próprio está no sexto mandato de deputado federal, seu filho Flávio desempenha o terceiro mandato de deputado estadual, a ex-esposa Rogéria foi vereadora na Câmara Municipal do Rio e ele tem lá, hoje, outro filho, Carlos, já no segundo mandato.
Bolsonaro surgiu para a vida pública como um capitão da ativa do Exército que escreveu um artigo para a antiga seção “Ponto de Vista” de VEJA, edição de 3 de setembro de 1986, criticando a Força por diferentes razões, inclusive os baixos salários. Acabou sendo punido, ganhou as manchetes, foi para a reserva e pulou para a política, começando como vereador no Rio, embora seja paulista de Glicério, no Noroeste do Estado de São Paulo, mas foi registrado em Campinas.
Em seus 24 anos como deputado federal — consultem seu perfil oficial na Câmara dos Deputados –, embora tenha apresentado montanhas de projetos e participado de incontáveis comissões, Bolsonaro se diferenciou dos demais medíocres da Casa somente por seus discursos ofensivos, gritados ao microfone e volta e meia tendo cortado o som pelo presidente da Mesa. Ele jamais demonstrou o mais mínimo preparo apreciável em gestão pública, em economia, em relações internacionais e em uma série de outros requisitos mínimos necessários a quem aspira ser presidente da República.
Seus cursos de aperfeiçoamento como pára-quedista e de mergulho treinado pelo Corpo de Bombeiros certamente são úteis e interessantes para uma carreira militar desambiciosa, e o fato de haver cursado a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO) — um centro de excelência — é significativa. Mas trata-se de um currículo estreito demais para quem quer dirigir uma das 10 maiores economias do planeta.
Não concordo com as ideias de Bolsonaro e repudio a frequência com que ele as defende de forma grosseira, agressiva e pouco democrática. Acho, porém, que ele representa um segmento da opinião pública e tem obviamente o direito de expressar o que pensa, sempre que aja dentro da lei.
Está muito bem que seja deputado federal e que tente se reeleger. (Já não acho tão bem que queira a família toda vivendo de salários do Legislativo…)
Ser presidente da República, porém, definitivamente não é para seu bico.
5 Comentários
Texto antigo, mas tem lá o seu valor, tio
Se a Dilma foi presidente, porque o capitão Bolsonaro não pode?
O post tá certo. Quem votar no cara vai se arrepender. Não sabe nada de nada, só dá murro na mesa. Não voto nele nem morto, mas ainda não decidi meu voto
Caro Setti, concordo inteiramente com seu texto, mesmo tendo sido escrito há quatro anos. Um abraço
Piada é a sua matéria #Bolsonaro2018