Como editor especial de Playboy, uma das tarefas que recebi foi entrevistar o então ministro da Justiça da Nova República, Fernando Lyra. A tarefa não me pareceu muito interessante quando dela me incumbiu o diretor de Redação, Mario Escobar de Andrade.
Estávamos em novembro de 1985, a ditadura, que tanto havia censurado a revista, acabara há apenas oito meses com a posse de um presidente civil, e o que Mario realmente queria é que uma autoridade do porte de um ministro da Justiça referendasse abertamente Playboy como veículo sério, expondo-se a uma demorada entrevista.
Lyra levou a sério a entrevista: começou em seu apartamento em Brasília, em que aparece na foto, à direita, mas as interrupções por telefonemas, parte de sua movimentada rotina, o levaram a sugerir que continuássemos em São Paulo, num hotel.
Para minha surpresa, os três diferentes dias de conversa com Lyra tiveram um resultado riquíssimo, porque ele fora um dos coordenadores da vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, gozava da intimidade do presidente, com ele conviveu intensamente e acabou revelando um bom número de bastidores inéditos.
Um deles: a conversa que manteve com Tancredo no Palácio das Mangabeiras, em Belo Horizonte, um dia depois da posse do futuro presidente como governador de Minas, no dia 16 de março de 1983, em que Lyra sugeriu que Tancredo partisse para a disputa no Colégio Eleitoral.
Ou seja, Lyra foi provavelmente o primeiro político de porte a enxergar a possibilidade de derrotar o regime militar no instrumento que ele próprio inventou para perpetuar-se no poder — o Colégio Eleitoral, que apenas referendava, “elegendo” presidente, o general previamente selecionado por seus pares. E soprou essa possibilidade no ouvido do próprio Tancredo.
(Foto: @Orlando Brito)