O fato não é novo, o comentário, sim.
Resolvi assistir, dias atrás, às finais do festival de música Eurovision em sua versão 2011, um evento que se disputa há 55 anos entre países-membros da associação de emissoras de rádio e TV European Broadcasting Union e que mobiliza a mídia e multidões de fãs em dezenas de países europeus – desta vez, mais de 140 milhões de telespectadores. Um dos maiores espetáculos do gênero no mundo, se não o maior.
A disputa se dá em etapas eliminatórias, os cantores ou grupos musicais que representam os distintos países não recebem cachê – já é o suficiente, para eles, a exposição à colossal audiência europeia – e cada canção é votada pelo público, a diferentes preços conforme o país, por mensagens SMS ou chamadas a números telefônicos determinados.
Engolir até o fim o conteúdo do cálice amargo
Eu já sabia, por ter visto etapas eliminatórias de certames em anos anteriores, que a esmagadora maioria das canções era de uma mediocridade espantosa. Desta vez resolvi engolir o conteúdo do cálice amargo até o fim e assisti inteirinha pela TV à fase final, realizada na espetacular Fortuna Arena, de Düsseldorf, na Alemanha – um estádio multiuso com capacidade para 54 mil pessoas que, adaptado para o evento, abrigou 20 mil em cada uma de suas três etapas.
Tudo em clima de superprodução hollywoodiana, com toques cafonas de Las Vegas: centenas de potentes refletores, cenários multicoloridos, chuvas de metal prateado, telões do tamanho de edifícios.
Pois bem, não apenas as canções, mas também os cantores e os grupos me pareceram extremamente medíocres – e escrevo aqui não como crítico, mas como mero apreciador de música. Das 25 canções de 25 nacionalidades diferentes que disputaram a etapa final, venceu uma dupla do improvável Azerbaijão, Ell e Nikki, com “Running Scare” — sim, composta e candata em inglês.
A maioria não apresentou qualquer traço cultural de seu país, optando por um pop americano de segunda
O que mais me impressionou, porém, é que a grande maioria das canções apresentadas não trazia qualquer característica cultural marcante do respectivo país, fosse da Finlândia ou da Grã-Bretanha, da Alemanha ou da Bósnia. Muitos representantes de uma herança musical diversificada, variada, viva, riquíssima fizeram questão de deixá-la em casa.
O que se viu e ouviu foram em quase todos os casos clones de pop americano de segunda linha, e, com raríssimas exceções, cantado em inglês.
Da maçaroca cultural inodora, incolor e insípida, só me chamaram a atenção a boa voz do francês Amaury Vassili – que, no entanto, cantou no idioma corso –, da eslovena Maja Kenc e da húngara Kati Wolf, além da pegada jazzística do italiano Raphael Gualazzi.
Cerca de 200 mil visitantes e nada menos do que 2.200 jornalistas acorreram a Düsseldorf – o que me pareceu próximo do inacreditável para evento tão pobre.
Se o Eurovision é um retrato do que se faz em matéria de música pop na Europa, estamos diante de uma enorme retrocesso cultural.

Você pode encontrar muitas informações adicionais sobre o Eurovision no site oficial. E assistir à apresentação da canção vencedora, “Running Scared”, no vídeo abaixo.
9 Comentários
Não publico comentários depreciativos, e sem qualquer fundamentação, sobre VEJA.
Dizer que o Eurovision é apenas uma fábrica de coisas hollywoodianas chega a ser ridículo. Desde 2007 que venho acompanhando o Eurovision e o que mais vi foram músicas exóticas dos mais diferentes países, muitas carregada com a cultura dos mesmos. Um exemplo que chegou a me emocionar foi a vencedora de 2007 da Sérvia, com a música Molitva totalmente em servo-croata (e eu não vi nada de americanizado nela).
Complementando meu post anterior, vale ressaltar que Sérvia, Israel, Bulgária, Macedônia e Chipre também cantaram nos seus idiomas nativos. A cantora de Israel, inclusive, é um dos transexuais mais bem sucedidos do mundo e ícone no seu país. Acho que não devemos impor o que é bom ou ruim. Você falou da parte ruim do Eurovision, se pegar as últimas 5 edições do concurso você vai encontrar mais músicas de qualidade do que foram produzidas aqui no Brasil no mesmo período. E ah, é bom deixar claro que Eurovision não é um concurso folclórico. É de música.
Mas será que ninguém pode fazer música pop animada que é cópia dos EUA? Só os eatadunidenses sabem fazer música de qualidade? Quanta ignorância! Ouça as canções das edições anteriores do festival para ver a diversidade musical do evento.
Polônia cantou em polonês, Espanha em espanhol, Portugal em português, Reino Unido em inglês, Grécia em grego, Itália em italiano, etc. Geórgia, Turquia, Moldávia, Itália, Albânia e vários outros países NÃO MANDARAM POP. Suas críticas são um pouco infundadas. Você não chegou nem perto de citar a grande cantora da Lituânia (Evelina Sasenko) e nem as belíssimas canções da Suíça e da Áustria. Você não comentou como se deu a seleção dos Sjonni's Friends pra representar a Islândia. Sua análise está bem superficial, há músicas de praticamente todos os estilos no Eurovision, cada edição é diferente.
O ABBA foi descoberto nos anos 70 apos vencer uma edição do Eurovisão com ... pop americano (o da época, lógico) ! Isso quer dizer que ha quarenta anos já estavam atrasados.
"O que mais me impressionou, porém, é que nenhuma das canções apresentadas – repito, amigos, nenhuma, nem uma única – trazia qualquer característica cultural marcante do respectivo país..." Prezado, você ouviu os temas da Grécia, Espanha, Chipre, Macedonia, Albânia (versão original em albanês)? Ouvi, sim. Você está me ajudando a relativizar o texto. Você tem razão, caro amigo. E agradeço por isso. Vou lá mexer no post, graças a você. Abraços
Nossa senhora, acabei de ver o de Portugal. Eles estão só uns 50 anos atrasados.
Bem, já que você informa a mediocridade das apresentações, fica claro por que "a disputa se dá em tapas eliminatórias". Os péssímos concorrentes são eliminados na base de cachações e bofetadas, sendo poupados os menos piores. Hahaha Obrigado pela atenção e pelo bom humor, caro Uzar. Abraços