BRASÍLIA – O padrão Collor de campanha é algo que resulta em parte do instinto do presidenciável e em parte de diretrizes traçadas em conjunto pelo candidato e o comando de sua campanha, com algumas pitadas de acaso.

A decisão de se fazer invariavelmente discursos curtos, por exemplo, foi tomada nas duas primeiras “reuniões de segunda-feira” – encontros semanais, que já não são mais feitos, de Collor com a meia dúzia de assessores mais chegados –, uma na sede do [chamado] Movimento Popular de Reconstrução Nacional, próxima à Torre de Televisão, em Brasília, e outra no escritório do empresário Paulo Octavio Pereira, na Asa Norte da capital.

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Cláudio Humberto: o assessor de imprensa deu várias ideias para o formato da campanha ao vivo, como diminuir drasticamente o número de oradores : “O candidato não deve encher o saco do povo” (Foto: @Agência Estado)

“O candidato não deve encher o saco do povo”, propôs na ocasião o assessor Cláudio Humberto Rosa e Silva. Collor topou. Decidiu-se, então, acabar com a tradição brasileira de, em comício de candidato, falarem o prefeito da cidade, o deputado da região, ex-prefeitos, vereadores. Com Collor, só falaria, no máximo, a liderança local responsável pelo evento. No mais, o comício deveria ser um espetáculo: fogos, música, dança.

Crucial, para a campanha-show, foi outra tática: a de criar um “púlpito” no palanque de forma a evitar os “papagaios de pirata” e destacar a figura do candidato.

A idéia surgiu de uma conversa entre Cláudio Humberto e o fotógrafo Antonio Ribeiro, da revista Veja em Brasília. Ribeiro reclamava que, do ponto de vista profissional, palanque era tudo igual: uma massa de políticos se espremendo. “

— Vocês têm que dar um jeito de limpar a área para deixar o candidato aparecer — reclamou o fotografo.

Cláudio Humberto observou fotos de comícios americanos e concordou com a tese. Hoje, no púlpito, que avança para a frente do palanque e às vezes fica mais alto do que ele, só ficam Collor, Rosane e, eventualmente, o promotor local do comício.

Já a decisão de levar a mulher aos comícios foi do próprio Collor. É estranho que outros candidatos não façam o mesmo, porque funciona de forma exemplar.

Rosane às vezes enxuga o suor da testa do marido, aplaude, sorri. Em Sorocaba (SP), dias atrás, não resistiu a uma passagem do discurso de Collor e o abraçou. O público aplaudiu.

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A presença da mulher, Rosane,foi iniciativa do próprio Collor (Foto: @Agência Estado) (Foto: @Agência Estado)

Foi também Collor quem percebeu o impacto de chegar aos comícios entrando no meio do povo. Aconteceu por acaso em Imperatriz (MA), no dia 29 de setembro [deste 1989]. Quando a comitiva acorreu à praça central, percebeu que o público tomara o local tanto à frente como atrás do palanque. Não havia outra forma de chegar lá a não ser contornando a praça por ruas adjacentes.

O senador João Castelo (PRN-MA), um tanto assustado ante a decisão de Collor de ir em frente, avisou:

— O povo aqui faz questão de pegar no candidato.

Collor foi, e notou o entusiasmo da platéia quando chegou ao palanque despenteado, com a roupa amassada e arranhões nas costas.

Da mesma forma, o costume da caminhada rápida começou sem querer em Codó (MA), no dia seguinte, sob um sol de 40 graus. O avião King Air que o conduzia teve que frear no meio da pista de aterrissagem, por temor do comandante quanto à segurança do público que invadira o aeroporto. Collor pulou do avião e marchou dois quilômetros até a pequena estação de passageiros, seguido por gente aplaudindo.

Os dois movimentos acabaram virando peças de seu marketing.

(Reportagem de Ricardo Setti, desde Brasília, publicada no Jornal do Brasil a 30 de outubro de 1989 sob o título original de “Equipe do PRN faz marketing sobre o acaso”)

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