Quem diria eles todos de mãos dadas, numa alegre ciranda. Um dos personagens, o ex-governador baiano, Antônio Carlos Magalhães [ACM], chamou outro, o ex-governador paulista Paulo Maluf, de “ladrão” durante a campanha de Tancredo Neves para a Presidência, em 1984 . Maluf, por sua vez, classificou um terceiro, o ex-governador do Rio e do Rio Grande do Sul Leonel Brizola de “desequilibrado” na campanha eleitoral do ano passado. Brizola, finalmente, sapecou adjetivos algumas vezes ainda mais pesados e frequentemente impublicáveis, nos outros dois.

Agora estão todos do mesmo lado, contribuindo para deseducar o eleitorado brasileiro, ao boicotarem os primeiros debates entre candidatos a governos estaduais nas eleições de outubro deste 1990, promovidos esta semana pela Rede Bandeirantes de Televisão.

É claro que os três, bem como outros candidatos de trajetória mais recente na política nacional, como o pernambucano Joaquim Francisco, arranjaram sonoros pretextos para não aparecerem perante o eleitorado ao vivo.

Maluf, por exemplo, disse que sua plataforma de governo ainda não está pronta e que, além disso, nem vale a pena discutir com candidatos de pouca expressão nas pesquisas.

Brizola avisou que não iria porque o programa não seria transmitido em pool pelas emissoras que cobrem o Rio.

ACM foi pelo mesmo caminho, ao justificar a ausência também pela falta de uma cadeia de televisão que veiculasse o debate de Salvador. E por aí vai.

A essas desculpas esfarrapadas, não faltou a correspondente mise-en-scène. Os assessores de Brizola por exemplo, juraram que ele estava disposto a enfrentar os concorrentes, mas acabou cedendo à argumentação contrária de sua equipe – como se o ex-governador alguma vez tivesse feito qualquer coisa política que não viesse de sua própria cabeça. Parecendo o ensaio de um mesmo script, o pessoal de Maluf, por sua vez, recitou a mesma cantilena em São Paulo.

Em todos esses casos, os candidatos ausentes dos debates e seus colaboradores fizeram essas e outras afirmações. Só ficou faltando uma coisa: dizer a verdade.

E a verdade é simples e cristalina: eles não foram aos debates única e exclusivamente por tática eleitoral, baseados numa espécie de regra das campanhas políticas segundo a qual quem for líder muitos pontos à frente nas pesquisas de preferência dos eleitores não deve dar oportunidade de debate aos adversários, porque não tem nada a ganhar e, frequentemente, tem muito a perder.

Em outras palavras, o interesse do esclarecimento do eleitor que se dane.

Trata-se de uma tática que muitas vezes funciona. Ela surgiu e consolidou-se como tantas outras práticas políticas, nos Estados Unidos, e tal vez tenha atingido o ápice na disputa entre o presidente republicano Richard Nixon e seu concorrente democrata George McGovern, em 1972.

Nixon fez uma campanha imperial, procurando permanentemente passar a imagem de um chefe de Estado ocupado com grandes assuntos, e não a de um candidato atrás de votos. Ele não participou de nenhum debate com McGovern, não citava sequer seu nome nos comícios nem respondia a suas críticas. E ignorava sua existência até o momento de receber o telefonema de congratulações do adversário esmagado na mais terrível derrota eleitoral da História americana.

É claro que no nosso caso os exemplos são mais próximos e recentes . Ninguém está pensando, obviamente, em Nixon. Estão todos esses favoritos de agora seguindo os passos do presidente Fernando Collor, que procedeu exatamente assim no primeiro turno da eleição do ano passado. No caso de Collor, deu certo.

Mas estaremos diante de uma regra efetivamente universal? Mesmo do ponto de vista eleitoral, será mesmo um acerto começar a ser chamado de fujão com o é o caso de Brizola, que ironicamente cunhou o rótulo para Collor, disse cobras e lagartos do comportamento do hoje presidente e, agora, faz exatamente a mesma coisa?

Não é estranho que Maluf, por seu turno, se veja tão invulnerável na posição de candidato certo a uma das vagas do segundo turno, quando ele próprio foi vítima de um arrasador, imprevisível e fatal “efeito Erundina” nos últimos dias da campanha para prefeito em 1988?

Mas o centro da discussão não deve ser o da mera tática. Temos de trazê-la para o campo da ética.

Os políticos brasileiros passaram quase um quarto de século esbravejando contra o silêncio compulsório e a falta de liberdade imposta pela ditadura militar. Agora, têm a obrigação moral de colaborar ao máximo para a ilustração do eleitor e a consolidação da democracia e os debates civilizados entre candidatos são, para isso, um passo importante.

Se os favoritos se acham suficientemente conhecidos pela população a ponto de desprezarem o precioso espaço democrático que representam os debates ao vivo, por que não propõem, então, a volta da Lei Falcão? [Lei da ditadura que, em 1976, inspirada pelo então ministo da Justiça, Armando Falcão, por termor de debate livre que beneficiaria a oposição, limitou já a partir das eleições municipais daquele ano a campanha na TV que se descreve em seguida. Só seria derrogada em 1986, já com o país redemocratiado.] Lembram-se dela? Só as fotos 3×4 no vídeo, meia dúzia de palavras do currículo de cada candidato, como era adequado para a democracia de fancaria dos generais.

Os cidadãos que vão votar em 3 de outubro merecem mais respeito.

(Artigo de Ricardo Setti publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 9 de agosto de 1990)

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Reprodução do artigo tal como foi publicado no jornal

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