Se a França pega fogo com as manifestações contra as reformas pretendidas pelo presidente Nicolas Sarkozy, especialmente o aumento da idade mínima para aposentadoria — dos atuais 60 para 62 anos –, está chegando a hora do Reino Unido.
O governo de coalisão entre conservadores e liberais-democratas do primeiro-ministro David Cameron anunciaram medidas que incluem um brutal corte de 25% nos gastos de custeio do Estado, atualmente na casa dos 110 bilões de dólares.
Cameron pretende fazer um fundo corte nos quadros do funcionalismo: 490 mil funcionários dos atuais 6 milhões de servidores públicos poderão ir para a rua. Cameron está enfrentando o maior déficit público da história, que atinge espantosos 220 bilhões de dólares, cerca de 11% do PIB do quinto país mais rico do mundo. Como os cortes atingirão as Forças Armadas, não se sabe como ficará o comprometimento britânico em paises conflagrados como o Iraque e o Afeganistão, onde os contingentes do Reino Unido só são superados pelos dos Estados Unidos.
A coalizão de governo entre conservadores e liberais-democratas deverá também promover mudanças na Previdência Social, cortar benefícios e tomar outras medidas drásticas.
A oposição trabalhista e grupos de esquerda acusam Cameron de querer reduzir o tamanho do Estado — e eles têm absolutamente porque, sim, este foi, exatamente, um dos propósitos anunciados na campanha eleitoral pela coligação que venceu as eleições.
A redução do que a primeira-ministra conservadora Margaret Thatcher (1979-1990) chamava de “gigantismo estatal” reconhecidamente tirou a Grã-Bretanha da decadência, renovou seu parque industrial, permitiu grande avanço tecnológico, criou empregos e dotou o país de um capitalismo dinâmico e competitivo. O lado B dessas medidas é que Thatcher cortou fundo os recursos para o extraordinário estado de bem-estar construído em décadas por governos trabalhistas e também conservadores, em especial o National Health Service, o Sistema Nacional de Saúde, gratuito e tido por muitos como um dos melhores do mundo.
Onda de austeridade — A onda de austeridade para levantar a Europa dos efeitos da crise financeira mundial de 2008 continua. Na Itália, o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi estuda a elevação de 65 para 70 anos da idade mínima de aposentadoria dos trabalhadores homens que hoje têm menos de 30 anos.
E, na Alemanha, que igualmente prepara mexidas nas aposentadorias e há uma década vem cortando gastos sociais, o governo da primeira-ministra Angela Merkel deve diminuir os recursos ou o valor do seguro-desemprego. Não se sabe se ficará apenas nisso.
4 Comentários
Oi Ricardo Moro na Inglaterra ha 5 anos, e acho que o novo governo tem que cortar gastos. Primeiro , por causa do imenso deficit fiscal e do aparelhamento do Estado que o Labour Party (uma versao melhorada do PT) do Blair e Brown deixaram. Segundo que todos estao cansados (inclusive eu) de trabalhar para sustentar gente que vive as custas do governo. Muita gente tem a cultura do "nao trabalho". Algumas familias tem 5 ou mais filhos, porque recebem muitos beneficios do governo (casa, gas, eletricidade, salario semanal por filho, dentista, etc) e nem precisam trabalhar. Existem casos em que a cultura do nao-emprego passa de pai para filho. Sem duvida , uma parcela da populacao precisa de ajuda do governo mas a cultura do beneficio esta passando dos limites. Sem contar com as pessoas que falsificam informacoes para obterem os beneficios. Uma loucura! Um grande abraco Cara Cris, obrigado por acompanhar o blog aí da Velha Albion, de tão longe. E obrigado por seu comentário rico e pelo super-válido depoimento pessoal. Abração do Ricardo Setti
Seria bom ter um pouco de cautela com o andor, porque o santo é de barro. A razão do arrocho fiscal e previdenciário tem a ver com o capotamento do sistema financeiro completamente desregulado. A coesão social em um momento de crise não recepciona soluções bonapartistas e puramente fiscais. Talvez fosse necessário revisitar Hugh Dalton que cuidou das finanças britânicas no pós-guerra e verificar em que mundo queremos viver: seguro e ordenado ou o contrário. Não podemos esquecer que a II Grande Guerra ocorreu após a crise de 29 e por conta do fracasso da Liga das Nações que não conseguiu administrar o Pacto de Versailhes. A história não se repete, mas há um passivo social gigantesco que os mercados não conseguem suportar e diante do qual os Estados não podem se tornar impassíveis.
Caro R. Setti: Tem q incluir as Esferas Federal, Estadual e Municipal. Tenho certeza q é mais de 60 % de custeio. Pq essas esferas contribuem para a União? E recebem repasses ? Claro q se for só o nível Federal. O nível está bom ! Abs. Vou rechecar isso, caro Marcol. Um abraço
6 milhões de funcionários publicos numa população de 63 milhões de habitantes. Nessa conta se inclue os terceirizados? Se no brasil ocorresse a mesma proporção dos britanicos teriamos aproximadamente 18 milhões de funcionarios públicos. Pelo jeito a Lady Thacher foi menos eficiente que FHC. Uma coisa que todos os governos maquiam muito seja do PT ou do PSDB e a folha de pagamento. Porque ao meu ver os funcionarios terceirizados deveriam cair na conta de custeio da folha e não de em despesas gerais ou investimento. Tem gente que toca bumbo falando que diminuiu o porcentual da folha de pagamento abaixo da lei Camata mas exclui os terceirizados da conta. Todos os servidores publicos (exceto militares, diplomatas e agentes fiscais e policiais) deveriam ser celetistas.