O último dos países bálticos da antiga União Soviética finalmente adotará o euro no início do ano que vem, 2015. A Lituânia, país de 3 milhões de habitantes e cerca de 65 mil quilômetros quadrados, já está produzindo a moeda comum europeia, que deve entrar em circulação em 1º de janeiro de 2015.
O anúncio de que a Lituânia se tornaria o 19º membro da zona do euro foi feito no dia 23 de julho pela União Europeia, em Bruxelas. O país foi admitido na União Europeia em maio de 2004, e três anos depois começou a adaptar sua economia e sua legislação para poder adotar a moeda comum da UE.
A introdução do país na moeda comum marcará também uma mudança de regras no Banco Central Europeu. Por enquanto, todos os membros do Conselho têm direito de voto nas políticas adotadas, mas, a partir da entrada da Lituânia, o poder de cada país será baseado em seu tamanho.
Com a mudança, os cinco maiores países terão, em conjunto, quatro votos, e os catorze restantes terão onze.
A Lituânia investe na missão de entrar na zona do euro desde 2007. Na época, a inflação nacional era um pouco alta, o que fez com que a União Europeia perdesse o interesse no país.
Desde que foi determinada a adoção do euro, a Casa da Moeda nacional tem trabalhado a todo vapor — e em três turnos. Saulius Vaitiekunas, diretor do órgão, afirmou que a produção é de mais de dois milhões de moedas a cada 20 horas.
Enquanto alguns lobos solitários desaprovam a medida, sob o argumento da luta da Lituânia pela independência e pela moeda própria, a maior parte da população está entusiasmada — comerciantes já sabem calcular seus preços em ambas as moedas, e a facilidade deverá atrair turistas. Alguns dizem até que a Lituânia teria superado a crise global de 2008 mais rapidamente se utilizasse o euro.
Repete-se, com a Lituânia, o que ocorreu com vários outro países da Europa Oriental: enquanto muita gente fora da Europa e na própria Europa Ocidental veja com ceticismo a União Europeia e seu futuro, os países ex-comunistas sob a órbita da antiga URSS transformam em festa nacional sua adesão ao grupo e, quando chega a vez, à moeda comum. Encaram esses degraus como importantes passos adiante no progresso do país e em sua integração à comunidade internacional.
Foi assim na Polônia, na Hungria, na República Checa, na Eslovênia, na Eslováquia… Eu estava na Europa quando a Croácia foi admitida na UE, em julho do ano passado, 2013 — e lembro-me de que o país inteiro comemorou como se fosse um Carnaval.
Mais do que em qualquer outra parte, na ex-área de domínio e influência da extinta URSS a União Europeia é vista como sinônimo de estabilidade política, fortalecimento econômico (apesar da brutal crise que se abate sobre a Europa desde a crise mundial de 2008), democracia, direitos humanos e crescimento civilizatório.
O argumento normalmente usado contra o euro (e que, em alguns casos, foi verdadeiro), de que sua introdução provoca um nivelamento para cima dos preços, parece que não vai ocorrer na Lituânia. As autoridades econômicas do país estimam que o aumento de preços com a troca da moeda será de 0,2% — contra uma inflação prevista para 1,5% no ano que vem.
Para manter o máximo possível da identidade nacional na moeda, o artista plástico lituano Antanas Zukauskas foi contratado para personalizar a parte de trás da versão lituana do euro com Vytis, o “Cavaleiro Branco”, símbolo heráldico do país desde 1366. O ícone foi proibido na época soviética e adotado como símbolo da luta pela independência em relação à ex-URSS.
2 Comentários
Caro amigo Ricardo Setti, Muito Obrigado pela sua excelente resposta. Gostaria de saber se as outras razões que estão prejudicando a entrada da Turquia na União Européia seriam essas: 01. Autoritarismo de Erdogan ; 02. Populismo de Erdogan ; 03. Falta de liberdade de imprensa ; 04. Corrupção na administração pública da Turquia ; 05. Irresponsabilidade na administração do dinheiro público ; 06. Instabilidade social ; 06. Instabilidade política ; 07. Falta de confiança dos agentes econômicos e do mercado financeiro ; 08. Islamização imposta a força pelo governo federal (em um país que deveria ter liberdade religiosa), etc... Tudo isso que eu escrevi é procendente? Quase tudo que você escreveu tem procedência, excluindo-se o item 2, que se refere a fenômeno que ocorre em vários países do mundo, e, aqui e ali, na própria Europa, o item 5, que não sei se alcança níveis de gravidade suficiente, e o item 8, que não ocorre na Turquia.
Caro amigo Ricardo Setti, você acredita que em um futuro próximo, haja alguma possibilidade de ingresso da Ucrânia e até da Turquia na União Européia e na Zona do Euro? Logicamente, depois que esses dois elementos nefastos e perniciosos (Vladimir Putin e Recep Taypp Erdogan) saírem da chefia de governo. Qual a sua opinião? Um dos principais problemas que afasta os ucranianos reside justamente nisso, Henrique: a parte ocidental do país favorece fortemente uma aproximação com o Ocidente, e políticos dessa região querem integrar-se à UE, mas há forte oposição a esses dois pontos pelos ucranianos de origem russa ou ligados por laços culturais e linguísticos à Rússia que vivem no leste. Quanto à Turquia, a crescente influência da religião muçulmana no governo e a persistência de graves problemas de direitos humanos, entre várias outras razões, estão prejudicando o ingresso do país na UE, que a meu ver seria um importante passo para que a Turquia servisse como ponte entre o Ocidente e o Oriente. Se formos esperar a saída de Putin e Erdogan de cena, então...