Em fevereiro não tem apenas carnaval, como diz o Patropi do Jorge Ben. Tem novidade grande na política: é neste mês que o empresário e apresentador de televisão Sílvio Santos vai decidir se será ou não candidato à Presidência da República. Ele está embarcando na próxima segunda-feira para os Estados Unidos acompanhado da mulher, Íris, e de quatro das seis filhas para um mês de férias e recuperação física, e já tem programada em sua agenda uma conversa com líderes do PFL para o dia 8 de fevereiro. Dependendo de como correrem as coisas, no próprio dia 8 poderá ser feito o anúncio.

A viagem de Sílvio começa por Boston, em Massachusetts, onde será submetido a uma revisão em sua problemática garganta por um médico considerado um dos maiores especialistas do mundo no assunto. Depois, segue para a Flórida, onde vai esconder-se num chalé na região dos Everglades, de endereço e telefone conhecidos somente por menos de meia dúzia de assessores mais próximos. Nesse período, enquanto descansa, Sílvio Santos espera que venham à tona os fatores cruciais para sua decisão: as pesquisas de preferência do eleitorado para o pleito de 1989 realizadas em dezembro e janeiro.

É esse o tipo de combustível que o impulsiona. Sílvio Santos guardava amarguras da política depois da puxada de tapete que levou do PFL paulista em sua tentativa de ser aspirante do partido à Prefeitura de São Paulo. Na ocasião, apesar de ter à disposição um candidato que disparava nas preferências do eleitorado, o PFL optou pelo generoso regaço do governo estadual e da nutrida fatia de poder na prefeitura e em outros setores da máquina do Estado que lhe foi prometida caso se coligasse, como o fez, com o PMDB – que, por ironia, acabou derrotado pelo PT em novembro. Mesmo antes da eleição, porém, Sílvio já tinha voltado a pensar em política. Foi em outubro, quando um desfile comemorativo do Dia da Criança promovido por sua rede de TV, o Sistema Brasileiro de Televisão, levou uma colossal multidão às ruas de São Paulo – dois milhões de pessoas, segundo estimou a Polícia Militar.

Aquelas cenas marcaram a memória de Sílvio Santos. A parada deveria durar quatro horas, mas acabou demorando sete horas, em boa parte devido ao assédio do público ao “homem do sorriso”, que desfilou num reluzente Mustang vermelho e não dava conta das pessoas desejosas de lhe estender a mão, dirigir-lhe uma palavra, obter um autógrafo ou um abraço.

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Algumas cenas da parada do Dia da Criança que levou 2 milhões de pessoas às ruas. Silvio desfilou num Mustang conversível vermelho (Fotos: Divulgação SBT) (Fotos: @Divulgação SBT)

Nessa ocasião, o animador voltou a falar de política. Com uma crescente vocação messiânica – Sílvio crê e proclama que a vida e o público lhe deram muito mais do que merecia e imaginava alcançar, e expressa um nem sempre articulado impulso de “servir” -, ele passou a dizer que, por razões próprias, nada o levaria a disputar a Presidência. Tampouco se mostrava disposto a atender a apelos de políticos nesse sentido. Declarava, porém, sua disposição de ceder ao que chamava de “desejo popular”.

A forma de medir tal “desejo”, explicava Sílvio, seriam os apoios públicos que recebesse, e especialmente as pesquisas de opinião pública. Estas, como se sabe, têm exibido resultados positivos ao animador. “Esse povo realmente gosta de mim”, disse Sílvio, dias atrás. “De uma forma ou de outra, eu preciso atendê-lo. Será que eu conseguiria como presidente?” Talvez seja em busca desta resposta que ele venha falando com tanta gente de peso.

Entre suas conversas recentes, alinham-se a que manteve durante um almoço no Palácio dos Bandeirantes com o governador de São Paulo, Orestes Quércia, ou o longo telefonema trocado com o governador Newton Cardoso, de Minas Gerais. Também intercambiaram idéias com o “homem do Baú” o senador Marco Maciel, do PFL, o ex-deputado e ex-governador biônico Paulo Maluf, do PDS, o empresário Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, e figuras graúdas da Federação das Indústrias paulistas, a Fiesp.

Mas provavelmente o encontro mais relevante tenha sido com uma comitiva do PFL encabeçada pelo [influente] senador Jorge Bornhausen, de Santa Catarina [um dos principais caciques do PFL]. Acompanhado pelo deputado Rubem Medina (PFL-RJ), do irmão deste, o publicitário Roberto Medina, principal executivo da agência Artplan, e de Flávio Cavalcanti Júnior, assessor de Roberto, o senador Bornhausen primeiro almoçou com o presidente da holding do grupo Sílvio Santos, advogado Luiz Sandoval, no restaurante que o SBT mantém no alto de sua torre de transmissão no bairro paulistano do Sumaré, com uma esplêndida vista de São Paulo. Dali, todos seguiram rumo à casa de Sílvio no bairro do Morumbi, para três horas de conversa.

[O discretíssimo Sandoval, que não aparece, não concede entrevistas, não conta vantagens e pouca gente sabe de quem se trata, é uma das poucas pessoas cujas opiniões pesam nas decisões de Silvio Santos].

Bornhausen, falando em nome da direção do PFL, sem mais rodeios convidou Sílvio a ser candidato à Presidência da República pelo partido. A conversa chegou a detalhes. Sílvio Santos, por exemplo, não quis falar em nomes para compor a chapa, assegurando que concordaria em deixar essa articulação ao PFL, aceitando, inclusive, que o indicado para vice pertencesse a outro partido. Não disse nem sim nem não ao convite, mas fez uma exigência, no caso de vir a aceitá-lo: não assumir qualquer compromisso prévio quanto a nomeações para o Ministério ou para os cargos de primeiro escalão fora dele. Bornhausen aceitou a condição. A conversa terminou com a combinação de novo encontro em fevereiro.

Candidato, Sílvio Santos teria algumas linhas de atuação já definidas. A máquina administrativa sofreria uma drástica redução. Saúde, educação, alimentação e habitação seriam as áreas prioritárias de atuação do governo, Sílvio acha vital que o povo volte a acreditar no governo e, eleito, usaria a televisão nessa direção. “Empresário bem-sucedido como eu existem milhares no Brasil”, costuma dizer. “A diferença de mim para os demais candidatos é o poder de comunicação que Deus me deu, e que eu vou usar.” O empresário se acha, também, aquinhoado com outra capacidade. “Sei escolher homens, e vou usar esse discernimento na formação do Ministério.”

O que poderá ocorrer com este homem lançando-se ao ringue de 1989? As respostas são muitas. As reações a uma eventual entrada de Sílvio na disputa vão desde a chacota até o temor de que ele incorpore um perigoso populismo de direita, passando por gente que confia em seu tino de empresário e por outros, não poucos, certos de que o entrechoque político e ideológico de uma campanha duríssima como a de 1989 vai massacrar impiedosamente uma candidatura vazia como um balão de ar quente.

Mas aguardemos fevereiro.

(Artigo de Ricardo Setti publicado a 20 de dezembro de 1988 no JORNAL DO BRASIL sob o título original de “Silvio Santos decide em fevereiro”)

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Reprodução do artigo tal como foi publicado no JORNAL DO BRASIL

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