Empresários paulistas têm comentado nos últimos dias que boa parte do futuro imediato do monstruoso déficit público do país está nas mãos do senador José Richa, do PMDB do Paraná. Richa, ex-governador do estado, ex-prefeito de Londrina e político com excelentes relações na pirâmide de concreto onde está encastelada a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), é, como se sabe, relator da comissão de organização do estado da Assembléia Constituinte, e em suas mãos, entre outras bombas de efeito devastador, figura o anteprojeto, já aprovado na Subcomissão dos Estados, que cria na União nada menos que seis novos estados, além de transformar em estados os atuais territórios do Amapá e de Roraima.

Trata-se de um exotismo demagógico retirado do embornal de más idéias do deputado goiano Siqueira Campos. Um peculiaríssimo tipo de político, Siqueira Campos percorreu uma insólita trajetória na Câmara dos Deputados, passando de uma suposta “dissidência” na então Arena para a posição de suposto porta-voz da falecida “linha dura” militar no congresso e, finalmente, para a nada suposta situação de malufista empedernido e vociferante. Com o rolo compressor da vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, o deputado voltou à cena travestido em membro desse curioso Partido Democrata Critão – um saco de gatos ideológico onde não se encontra um único e escasso líder tradicional dessa corrente de pensamento que existe há quase meio século na política brasileira.

Pois bem. Foi exibindo esse currículo que o deputado conseguiu multiplicar sua antiga obsessão de criar um Estado novo no norte de Goiás, região que abriga o forte de seu eleitorado. Agora, em vez de lutar apenas pelo “Estado de Tocantins”, o deputado quer que o Brasil tenha oito novos Estados: o de “Juruá”, que seria mordido ao atual Amazonas; o de “Tapajós”, subtraído ao Pará; o do “Maranhão do Sul” (imaginemos o que anda pensando disso o presidente José Sarney); o de “Santa Cruz”, surrupiado à Bahia; o de “Tocantins”, naturalmente; e o do “Triângulo Mineiro”, que faria com que Minas Gerais perdesse seu multicentenário nariz. Completam a conta os dois territórios que subiriam de status.

Sabemos nós brasileiros, por própria e freqüentemente dolorosa experiência, que as bobagens, neste país, têm uma enorme capacidade de arrebanhar seguidores. Assim sendo, não foi ainda suficiente que a Subcomissão dos Estados aprovasse sem maior dificuldade o tresloucamento geográfico do deputado Siqueira Campos. Agora, o sono de Richa tem diminuído ainda mais com idéias como a do deputado Humberto Souto (PFL-MG), que quer criar também um “Estado de São Francisco” na margem oeste do grande Rio, por meio de emenda já apresentada na comissão de que o senador paranaense é relator. Nem o próprio Estado de Richa querem manter intacto, uma vez que prolifera a idéia de se criar, com um naco do Paraná, um “Estado do Iguaçu” que talvez bicasse, também, algumas costelas de Santa Catarina.

A hipocrisia com que se argumenta em favor desse exotismo chega a ser primorosa. Fala-se, principalmente, no surto de desenvolvimento que o Mato Grosso do Sul e Rondônia atravessaram depois de se transformarem em Estados. O que ocorreu em ambos, na verdade, foi uma saga – nem sempre rósea, freqüentemente atabalhoada – protagonizada, sobretudo, por brasileiros comuns e empreendedores, em grande parte emigrados do Sul e de São Paulo. O Estado, ali, seja a União, sejam os dois Estados recém-criados propriamente ditos, só fez atrapalhar: nesta década de existência, Mato Grosso do Sul e Rondônia viram inchado seu funcionalismo e consumidos pela burocracia os recursos que deveriam ser investidos em educação, saúde e infra-estrutura. A corrupção, de seu lado, vicejou na mesma proporção em que crescia a máquina oficial.

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O senador e ex-governador José Richa (PSDB-PR): com a bomba na mão (Foto: @Portal da Memória Paranaense) (Foto: @Portal da Memória Paranaense)

Até amanhã, dia 1º de junho, o senador Richa ainda receberá emendas ao anteprojeto que o deputado Siqueira Campos conseguiu aprovar – quem sabe, inventando ainda mais Estados. Até a próxima segunda-feira, dia 8, o senador terá que usar todo o seu bom senso, equilíbrio e experiência para expurgar essa penca de tolices do relatório que apresentará à comissão. E, até o dia 15, aos demais brasileiros cabe torcer para que o plenário da comissão siga a sobriedade de Richa.

Com a brincadeira dos estados fabricados em série, sem contar as considerações geopolíticas e outras do mesmo porte, o contribuinte brasileiro passaria a alimentar já a partir de 1988 um batalhão de mais dez governadores e 30 senadores, cerca de uma centena de novos deputados federais e quase o dobro de deputados estaduais, sem contar os milhares de funcionários. Aumentaria também, é claro, a possibilidade de existência de novos marajás. Basta lembrar o exemplo de Rondônia, este novo estado de estrutura já tão viciada. Ali, o governador Jerônimo Santana descobriu uma máquina administrativa equivalente ao do muito mais populoso e desenvolvido Paraná e, entre outras barbaridades, achou até desembargadores do Tribunal de Justiça, ganhando o triplo do que recebem os ministros do Supremo Tribunal Federal em Brasília.

Que Deus proteja o senador Richa.

(Artigo de Ricardo Setti, de São Paulo, publicado no Jornal do Brasil em 31 de maio de 1987 sob o título original de “Deus proteja o senador Richa)

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Reprodução do artigo tal como foi publicado no “Jornal do Brasil”

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