Ministro caído, ministro nomeado. Viva, pois o novo Ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser Pereira. O júbilo não deve ser apenas decorrência do fato a esta altura auspicioso de que o Governo e o PMDB conseguiram, finalmente, sair da formidável embrulhada em que se meteram – por acesso agudo de anemia política – e nomear um ministro. Registre-se também que se nomeou não um ministro qualquer, mas um ministro competente, que tem idéias próprias e originais, que sabe o que quer e como chegar lá.
Se o ministro Bresser vai chegar é outra história, como também é outra história a do balanço dos mortos e feridos principais causados pelo episódio da substituição do ministro Dílson Funaro. Já se falou o suficiente de quanto a autoridade do presidente José Sarney foi submetida a um penoso processo de encolhimento, esgarçando ainda mais o frágil tecido de que é constituído seu mandato, por não ter tido forças para colocar no ministério o ministro que inicialmente desejava.
Já se debateu à vontade, também, a sucessão de solavancos sofrida no curso da crise pelo Dr. Ulysses Guimarães em sua hierática postura de faraó do PMDB. Até o invariável ex-deputado Paulo Maluf, como se sabe, acabou saindo de sua toca dourada para alfinetar os dois, dizendo que cada um é um presidente pela metade, mas que ambos, juntos, não somam um presidente inteiro.
De todo o conjunto de trapalhadas institucionais dos últimos dias, porém, emergiu uma pergunta cuja resposta os homens de bem ainda têm o direito de exigir, depois de assentadas todas as camadas da tóxica poeira que se levantou: quem é, afinal, que vai pagar a conta pelo que fizeram com o governador do Ceará, Tasso Jereissati?
O governador Tasso Jereissati é um homem correto, um empresário capaz e um político promissor. Ele não precisava do Ministério da Fazenda, para o qual o presidente Sarney queria designá-lo; presume-se que, convocado, iria para uma missão de sacrifício e, aceitando-a, teria entre seus objetivos servir ao país. Não foi ele quem criou a crise decorrente da saída do ministro Funaro, e muito menos teve qualquer responsabilidade por um convite que não só não reivindicou como provavelmente sequer podia imaginar que iria receber.
Pois bem, foi esse o homem sobre o qual desabou a fúria dos elementos. Vetado pelos cardeais do seu próprio partido, virtualmente desconvidado pelo Palácio do Planalto, nem Tasso nem o país receberam, até agora, qualquer explicação de ninguém sobre quais foram, afinal, as razões de tudo isso.
Agora, depois de ter sido passado pela máquina de moer carne cujo botão ele não apertou nem sabia onde ficava, o jovem governador, uma revelação de político em seu partido e uma esperança de mudança em seu Estado, é devolvido ao Ceará. Lá, ele volta enfraquecido – ao menos temporariamente – para enfrentar a dura luta contra os coronéis retrógrados que levaram o Estado à calamidade em que se encontra.
Quer dizer, nas urnas, o governador os derrotou, e bem; foi na dura arena de Brasília que Tasso recebeu os golpes que o remeteram zonzo à terra natal – e, em Brasília, quem lhe desceu a marreta foi justamente a Nova República que, no Ceará, ele esgrimiu para exorcizar os coronéis.
É claro que isso – e muito mais – é perfeitamente possível num país onde um ministro merece a zombaria pública de um governador, responde publicamente qualificando o governador de “idiota, imbecil e cafajeste” e fica tudo por isso mesmo. Mas, passa francamente dos limites a escandalosa rejeição de que foi alvo o governador Jereissati por ser um homem do Nordeste, como se sua designação desbalanceasse o poder entre Estados do Sudeste e os demais.
Feito agora o feio papel contra o governador, fica beirando o ridículo a comemoração em curso por ter o ministro Bresser Pereira supostamente aceitado acolher um nordestino na Secretaria-Geral do Ministério, numa espécie de estabanada compensação pelo veto a Jereissati.
Os que, no Governo e no PMDB, erguem um brinde nesse sentido partem de dois pressupostos errôneos: o primeiro é o de que um arranjo desse tipo redime o Nordeste do preconceito político de que foi alvo; o segundo, o de supor que o ministro Bresser Pereira, um homem sério, inclui um exame na certidão de nascimento entre os requisitos exigidos para quem trabalha com ele.
Se os cardeais do PMDB tratam seus políticos-revelação como foi tratado o governador Tasso Jereissati, que se preparem o governador Carlos Bezerra, do Mato Grosso, o governador Fernando Collor de Alagoas – e por aí vai. E vai mal.
(Artigo de Ricardo Setti, de São Paulo, publicado no Jornal do Brasil a 4 de maio de 1987 sob o título original de “Jereissati não merecia isso”)