Ninguém ignora o ensurdecedor pipocar das críticas aos políticos, sobretudo senadores e deputados, produzidas pelas eleições de outubro deste 1990 – e a mais severa delas foi a silenciosa manifestação do eleitorado, abstendo-se em proporções assombrosas de votar para a Câmara e as Assembleias Legislativas. Por mais justas que as críticas sejam, não custa assinalar que há determinadas linhas que não devem ser ultrapassadas.
É, além de descabido, perigoso, por exemplo, fazer qualquer confusão entre a urgência de reformular os hábitos de vastos setores da classe política e a suposta desnecessidade dos políticos, que alguns pouco afeitos à democracia chegam a defender. A despeito de falar mal dos políticos seja um esporte nacional, nunca é demais, também, lembrar que os eleitos pelo povo, venham eles de que pedaço forem da imensa colcha de retalhos que é o País – dos grandes conglomerados urbanos ou do interior, das universidades, dos sindicatos, das profissões liberais e das fábricas, bicheiros ou aliados da UDR, radicalóides ou estatizadores, oportunistas ou patriotas –, são, no fundo, um retrato razoavelmente fiel da sociedade brasileira.
Se falarmos em responsabilidade “pelo que aí está”, é preciso lembrar que a dívida externa cavalar, a inflação delirante, os desníveis sociais e toda uma longa e lancinante lista de mazelas nacionais tiveram uma boa mão de militares ao longo de mais de 20 anos – ou alguém já se esqueceu?
Não se trata, portanto, de se juntar às imensas fileiras dos que apenas jogam pedras nos políticos. Há políticos e políticos, como se sabe. Uma coisa, porém, é verdade: eles bem que poderiam ajudar. E estes dias têm sido generosos em exemplos do que a classe não deveria fazer. Chovem casos – a começar dos grotescos, como o da Assembleia Legislativa do Tocantins, onde chegou a prosperar a formidável ideia de se conceder aposentadoria vitalícia, e no mesmo valor do salário atual dos deputados estaduais (Cr$ 500 mil, equivalentes a 60 salários-mínimos), aos deputados não-reeleitos. Como eles começaram a trabalhar no novo Estado a lº de janeiro de 1989, seria um recorde mundial de mordomia uma gordíssima aposentadoria com dois anos de tempo de serviço.
Não-reeleitos fazem feio também em Brasília. Faltam apartamentos funcionais (de ocupação temporária) para alojar os novos deputados porque alguns dos rejeitados nas urnas querem continuar desfrutando dos privilégios além do prazo legal. A direção administrativa da Câmara dos Deputados chegou a imaginar a instituição de um originalíssimo prêmio de Cr$ 350 mil para os deputados que deixassem os imóveis oficiais antes do prazo, mas a Mesa da Casa rejeitou a ideia – o que, se foi bom para a moralidade, ainda não bastou para resolver o problema.
Os rejeitados nas urnas, aliás, parecem estar merecendo mais preocupação do que a imagem do Parlamento. O líder do PRN na Câmara – logo do PRN do presidente Fernando Collor –, deputado Arnaldo Faria de Sá (SP), é um dos que se mostram mais condoídos com a sorte de seus colegas pouco afortunados.
Ele tem batalhado duro pela ideia de conseguir cargos públicos para os deputados que não terão mais mandato a partir de 1991, e teve de receber pela proa fustigadas do nada sutil senador Ney Maranhão, líder em exercício do mesmo PRN no Senado. “Pendurar essa macacada toda nos galhos do governo é um fisiologismo que não ocorreria nem mesmo no governo Sarney”, vociferou o senador, com franqueza rude. “Se o camarada foi derrotado na eleição, então que vá cuidar da sua vida”, sentenciou, com notável e rara propriedade.
O deputado Faria de Sá, com suas boas intenções calcadas no Erário, está repetindo uma prática extremamente disseminada em quase todo o País durante o regime militar. Em São Paulo, em sucessivos governos da Arena-PDS bastava um deputado federal ou estadual, ou um vereador, não conseguir se eleger para abocanhar um gordo posto na Comgás, na Cesp, na Sabesp ou em outra qualquer das muitas estatais paulistas.
A coisa andou tão longe que acabou sendo criada uma curiosa lógica: para um político paulista, era mais negócio perder do que ganhar uma eleição. Deputado ou vereador pouco apitava na época – ao passo que diretor de estatal, além do poder de nomear, demitir, fazer e acontecer, tinha gabinete, secretária, assessores, automóveis e, às vezes, até avião, sem contar a possibilidade de fazer negociatas. O perdedor, portanto, era premiado: se o eleitorado não o tinha querido, o Estado, em compensação, se encarregava de abrigá-lo.
O deputado Faria de Sá é conhecido como um bom sujeito: jornalista, cartola da Portuguesa de Desportos, bom de voto, com o tempo se especializou em defender velhinhos aposentados. Talvez não lhe tenha ocorrido que, se houver farta distribuição de mordomias para deputados não reeleitos, seu eleitorado vai acabar sendo prejudicado. Se ele esquecesse essa história seria muito melhor para a imagem do Congresso e, é claro, para os velhinhos também.
(Artigo de Ricardo Setti publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 1º de novembro de 1990 com o título original de “Os políticos e os velhinhos”)