Os modos rudes de cowboy texano do falecido presidente americano Lyndon Johnson escondiam um considerável senso de humor. Certa vez, ao queixar-se da imprensa, ele sapecou:
— No dia em que eu andar sobre as águas, vai sair uma reportagem com o título:’Lyndon Johnson não sabe nadar’.
São antigas e universais as queixas dos políticos contra a imprensa. Os políticos no Brasil, é claro, não fogem à regra, a começar pelo presidente Fernando Collor. Durante a campanha presidencial de 1989, em poucas conversas reservadas, ele se declarava estarrecido com o que considerava o volume de informações absurdas, erradas ou tendenciosas publicadas a seu respeito.
Collor estranhava, também, o que via como implacável patrulhamento ideológico que lhe era movido por determinados jornalistas. Muitas vezes não tinha razão, em outras escorava-se em boa dose de fundamento – como em dois episódios vergonhosos em que, contrariados por atitudes do então candidato, repórteres que cobriam passagens suas por São Paulo vaiaram Collor e cantaram o Lula-lá, canção-símbolo da candidatura de seu adversário no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, por sinal, também tinha muitas queixas, em boa parte procedentes, sobre o tratamento que recebia de importantes veículos, inclusive ligadas ao mesmo patrulhamento ideológico que encurralava Collor, só que com sinal trocado.
Mas uma das boas coisas da imprensa é o fato de que ela tem o hábito de discutir seus próprios erros. Entre tantos, um grande repositório de barbaridades cometidas pela imprensa é o clássico A Primeira Vítima , livro do australiano radicado na Inglaterra Phillip Knightley. O título foi baseado na epígrafe – uma frase histórica do senador republicano dos EUA Hiram Johnson, também ex-governador da Califórnia, sobre o noticiário que chegava a respeito da I Guerra Mundial, então travada na Europa:
— A primeira vítima, quando começa a guerra, é a verdade.
O título vem bem a propósito. Ao longo de 560 páginas, Knightley expõe um festival de horrores cometidos por correspondentes de guerra ao longo de séculos. Figuram ali, correspondentes que eram, na verdade, espiões, enviados especiais que inventavam notícias, jornalistas preguiçosos e estatísticas de fazer corar um frade de pedra. O venerando The New York Times, por exemplo, entre novembro de 1917 e novembro de 1919, noticiou 91 vezes que os bolcheviques estavam prestes a cair ou, até, já tinham caído do poder na Rússia.
Esse levantamento não foi feito por um cientista social ou um historiador, mas por um jornalista – e isto diz muito sobre o jornalismo e sua capacidade de autocrítica. São fatos como esses que devem ser levados na devida conta quando se faz o julgamento da imprensa e dos que nela trabalham. No Brasil, porém, parece haver uma crença estranha e arraigada de que a verdade, se é a primeira vítima quando estala uma guerra, é um bicho incômodo que os jornalistas sentem prazer, no seu dia-a-dia, em abater a marretadas.
O grande editor-chefe da revista Time Henry Anatole Grunewald disse certa vez que, se a imprensa fosse checar a veracidade de cada fato em todos os seus ângulos e hipóteses, a sociedade seria informada pelos boatos. Em parte por não corresponder a esse ideal de perfeição, a imprensa é vista com desconfiança. No Brasil, tem de enfrentar um problema adicional: ao expor uma mazela ou uma bandalheira, corre o risco de ser considerada responsável por ela.
É o que tem acontecido com as denúncias reproduzidas nos jornais sobre recentes trampolinagens cometidas ou tentadas por políticos em diferentes latitudes: assembléias legislativas que querem aposentar com salários de marajá deputados não-reeleitos, deputados federais que imaginam aumentar, na calada da noite e violando a Constituição, o tamanho das bancadas para dar empregos a suplentes que o povo não elegeu e outras maravilhas.
Já há quem comece a enxergar nisso “ameaça à democracia” ou “tentativa de desmoralizar o Legislativo”. É a velha e cansativa história: se existe febre, a culpa é do termômetro. Na verdade, enquanto os Legislativos ou outras instituições nacionais não mudarem seus hábitos, vai haver material de sobra para a imprensa – e é um bem pelo qual muito se lutou haver liberdade para publicá-lo.
(Artigo de Ricardo Setti publicado em O Estado de S. Paulo a 8 de Novembro de 1990 sob o título original de “Políticos e imprensa”.)
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