Mesmo antes de se tornar um dos “pais do cruzado”, nos gloriosos e longínquos dias em que o qualificativo merecia as glórias de um título nobiliárquico, o economista Edmar Bacha já se celebrizara por ter criado uma palavra para descrever e explicar o Brasil: Belíndia. Referia-se Bacha, como se sabe, ao fato de há muito conviverem, num mesmo Brasil, pelo menos dois países. O economista definia um deles, menor, mais populoso e mais rico, como a parte Bélgica; e o outro, que todos sabemos qual é, como a parte Índia.
Quase simultaneamente a Bacha, a mesma concepção era formulada por outra cabeça (bem) pensante, só que situada em outro ponto do espectro da teoria econômica brasileira: o banqueiro Olavo Setúbal. Ao trocar o conforto refrigerado de seu gabinete no comando do Banco Itaú pelo desafio de administrar [como prefeito] a caótica realidade da maior cidade do Brasil – São Paulo -, Setúbal logo descobriu que conviviam, na mesma metrópole, uma Suíça e uma Biafra, a conturbada e infeliz província que há duas décadas, tentou a secessão na Nigéria.
As preocupações de Bacha e de Setúbal continuam, é claro, tão justificadas como antes. Mas talvez tenha chegado a hora de se dirigir as atenções também para um outro Brasil que vem sendo esboçado em diversas frentes e por variados protagonistas. Um Brasil que um jornalista de São Paulo chama de Togânia – ou seja, a vistosa mistura do Togo com a Albânia. Qualquer pessoa perspicaz pode perceber, em seu dia-a-dia, manifestações perfunctórias e ocasionais da Togânia no Brasil que já existe.
A porção Togo, com seus 300 dólares de renda anual per capita, não precisa ser buscada longe – basta se dar um pulo em alguns bolsões da fervilhante periferia leste de São Paulo e ela estará materializada para ser vista a olho nu. Quanto ao lado Albânia [alinhada ao comunismo chinês e o país mais pobre da Europa] – bem, para este não é necessário mais que conversar com certos dirigentes sindicais, ou assistir, por exemplo, a uma dessas ultimamente tão animadas assembléias de funcionários públicos em greve.
Mais curioso, porém, não é constatar o esboço de Togânia que já existe no Brasil, mas tentar identificar os sucessivos esforços para que esse país híbrido prevaleça. Veja-se, por exemplo, a Constituinte. Aprovadas certas propostas que ali merecem surpreendente trânsito, a Togânia receberia consideráveis, decisivos impulsos.
É o caso, entre tantas contribuições importantes, da proposta que concede estabilidade indiscriminada e incondicional a todos os trabalhadores, que viceja em uma das subcomissões da comissão da ordem social. O leitor há de convir que, inserida na Constituição, a proposta ocasionará fundas mudanças nos nossos níveis de produtividade: eles sairão do patamar Brasil para descer ao padrão Togânia. O parlamentarismo de opereta que se esboça no horizonte tem, igualmente, diversas características para que nele seja aposto o selo de controle de qualidade da Togânia. O mesmo pode ser dito da febre de reserva de mercado para diversos setores. Se isso medra, a tecnologia brasileira marchará para os mesmos padrões de excelência e rapidez de decisões que se espera de uma Togânia. E por que deixar de fora a reforma agrária? Se, como querem diversos parlamentares, ela se abater sobre áreas produtivas, teremos uma produção toganense de alimentos, disso os senhores não tenham dúvidas.
Embora presida o Brasil e declare estar sempre a mirar outros padrões, mais encontráveis na Europa ocidental, o presidente José Sarney, justiça se lhe faça, tem dado sua preciosa contribuição à sempre complexa elaboração da Togânia. Pois não foi ele quem, de repente, por um desses lapsos de memória tão compreensíveis em outras circunstâncias, avocou a si os poderes de fixar o tamanho de seu mandato, subitamente esquecido da soberania da Constituinte, que ele próprio tantas vezes proclamou?
A Togânia é, pois, uma possibilidade. Mas, como a balança da história sempre pode pender para uma ou outra direção, que tal a idéia de ficarmos com a velha Belíndia? Afinal, quem sabe um dos pratos acabará pendendo para o lado Bélgica, não é mesmo?
(Artigo de Ricardo Setti, de São Paulo, publicado no Jornal do Brasil em 24 de maio de 1987, sob o título original de “Melhor Belíndia”)